Villas Bôas diz que Bolsonaro resgatou Brasil de ‘amarra ideológica’

Ao deixar o cargo, o comandante do Exército ez um forte discurso político.

Villas Bôas afirmou que Bolsonaro “tirou o País da amarra ideológica que sequestrou o livre pensar” e “tirou o País do pensamento único e nefasto”.

Ao deixar o cargo, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas fez um forte discurso político no qual disse que o presidente Jair Bolsonaro
resgatou o Brasil das amarras ideológicas. Ele será substituído por
Edson Leal Pujol. A cerimônia de troca do comando acontece no Clube do
Exército, em Brasília, com a presença do presidente Jair Bolsonaro.

Diante
de Bolsonaro, Villas Bôas afirmou que o presidente “tirou o País da
amarra ideológica que sequestrou o livre pensar” e “tirou o País do
pensamento único e nefasto”. Ele também destacou que o Exército é
“democrático, apartidário e integralmente dedicado à Nação”. Ao final,
Villas Bôas foi aplaudido de pé e cumprimentado por Bolsonaro.

“O
senhor traz a necessária renovação e a liberação das amarras
ideológicas que sequestraram o livre pensar e nublaram o discernimento e
induziram a um pensamento único e nefasto como assinala o jornalista
americano Walter Lippmann: ‘Quando todos pensam da mesma maneira é
porque ninguém está pensando'”, afirmou.

O comandante, que sofre
de uma doença degenerativa e está em uma cadeira de rodas, fez apenas
uma saudação com agradecimentos. Com dificuldade para falar, seu
discurso de ordem do dia foi lido por um mestre de cerimônia.

Apesar
das críticas, Villas Bôas agradeceu a ex-presidente Dilma Rousseff e o
ex-ministro Jaques Wagner por sua nomeação. Também agradeceu ao
ex-presidente Michel Temer por tê-lo mantido no cargo e pela sua postura
em relação à instituição.

O comandante enalteceu três
personalidades, entre elas o ministro Sergio Moro (Justiça), que chamou
de “protagonista da cruzada contra a corrupção”. Nos quatro anos em que
ficou à frente do Exército, o Brasil enfrentou o ápice da Operação Lava
Jato, que revelou escândalos de corrupção envolvendo políticos e
empresários. Como juiz federal, Moro foi responsável pelas ações da
operação na primeira instância.

No início do ano, logo após
assumir a Presidência, Bolsonaro agradeceu o trabalho de Villas Bôas. “O
senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”, discursou o presidente
, durante a cerimônia de transmissão de cargo no Ministério da Defesa.

Villas-Bôas-H

Em
abril do ano passado, Villas Bôas se envolveu em uma polêmica ao fazer,
na véspera do julgamento de um habeas corpus do ex-presidente Lula no
Supremo Tribunal Federal (STF), um post no Twitter repudiando a
“impunidade” e dizendo que o Exército estava “atento às missões
institucionais”.

Imprensa

Em sua fala, Villas Bôas
também enalteceu o papel da imprensa, que disse que de forma “vigilante”
contribuiu para o aperfeiçoamento institucional do Exército. Ele citou
diversos jornalistas no discurso, entre eles a repórter Tânia Monteiro e
os colunistas Eliane Cantânhede e William Waack, do jornal Estado de São Paulo.

Ministro da Defesa elogia

O
ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, disse na cerimônia que a
principal contribuição do ex-comandante foi “o que ele conseguiu
evitar”. O ministro citou a instabilidade política que marcou os quatro
anos em que o general comando a força, sem falar abertamente sobre o
processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e as eleições de
2018.

Também general, o ministro afirmou que Villas Bôas exerceu
o cargo “num tempo que guarda as marcas das instabilidades que
colocaram à prova a maturidade das instituições democráticas
brasileiras, incluídas as Forças Armadas”.

O ministro disse que
Villas Bôas tem estilo “justo e humano” e foi uma “liderança
conciliadora”, tendo pautado seu período de comando pela “legalidade e
estabilidade”, com respeito à democracia.

Confira o discurso na íntegra:

Excelentíssimo senhor presidente Bolsonaro e senhora Michelle.

Festejamos
suas presenças, assim como a nação brasileira festeja os sentimentos
coletivos que se desencadearam a partir de sua eleição e assunção do
cargo. O senhor traz a necessária renovação e a liberação das amarras
ideológicas que sequestraram o livre pensar, embotaram o discernimento e
induziram a um pensamento único, nefasto como assinala o jornalista
americano Walter Lippman, “quando todos pensam da mesma maneira, é
porque ninguém está pensando”.

2018 foi um ano rico em
acontecimentos desafiadores para as instituições e até mesmo para a
identidade nacional. Nele três personalidades se destacaram para que o
“Rio da História” voltasse ao seu curso normal. O Brasil muito lhes
deve. Refiro-me ao próprio presidente Bolsonaro, que fez com que se
liberassem novas energias, um forte entusiasmo e um sentimento
patriótico há muito tempo adormecido. Ao ministro Sérgio Moro,
protagonista da cruzada contra a corrupção ora em curso e ao general
Braga Netto, pela forma exitosa com que conduziu a Intervenção Federal
no Rio de Janeiro.

Todos demonstraram que nenhum
problema no Brasil é insolúvel. Destaco a presença do ministro Dias
Toffoli, que, desde que assumiu a presidência do STF, vem fortalecendo o
judiciário, conectando-o com a sociedade brasileira e seus anseios.
Aqui se inscrevem também os ministros Luiz Fux, Carmen Lúcia e Alexandre
de Moraes, a Procuradora Geral da República Raquel Dodge e a Advogada
Geral da União, ministra Grace Mendonça, o ministro do STJ Francisco
Cândido de Melo Falcão Neto, o desembargador Thompson Flores, presidente
do TRF4 e o Dr. Wilson, consultor jurídico do Exército.

Igualmente
o Superior Tribunal Militar e o Ministério Público Militar tiveram
atuação determinante para a manutenção da disciplina nas Forças, bem
como nos proporcionaram a segurança jurídica indispensável ao nosso
êxito nas situações de emprego. Desde que assumi o comando, tive como
uma das principais preocupações a coesão do Exército e a identificação
com a sociedade de onde temos origem.

Nesse sentido,
prestaram grande serviço os companheiros da reserva em todo o Brasil,
incluindo-se aí os oficiais R2 representados pelas associações (AORE) e
3C de São Paulo. A todos sou muito agradecido pela aderência as nossas
mensagens e diretrizes e pelas manifestações de apoio e confiança que em
nenhum segundo me faltaram. Minha homenagem especial e agradecimento às
esposas de soldado, abnegadas mestras na arte de se readaptar a cada
nova guarnição e esteio indispensável ao exercício da profissão pelos
maridos. São essenciais ao êxito da estratégia da presença em locais
remotos e, por vezes, inóspitos, pois o coração do soldado reside onde
está sua família.

Talvez por sua juventude, muitas
vezes não têm noção da grandeza do que realizam. Ali estão tão somente
por amor aos esposos, pelo dom de servir e por dedicação ao Brasil. No
mundo moderno, as Forças Armadas incorporaram funções inéditas. Uma
delas é a Indução do Desenvolvimento econômico, científico, tecnológico e
social. Para essa tarefa tornam-se indispensáveis o esforço e a
participação conjunta das indústrias de defesa. Rendo minha homenagem e
agradeço aos empresários que, com resiliência, conseguiram superar os
percalços decorrentes da incerteza e descontinuidade dos repasses
orçamentários que enfrentamos. Boas vindas aos integrantes da imprensa,
que, permanentemente vigilantes, produziram o efeito de induzir o nosso
aperfeiçoamento institucional.

Nesses quatro anos,
convivemos com notáveis jornalistas, formadores de opinião da estatura
de William Waack, Alexandre Garcia, Tânia Monteiro, Natuza Nery, Heraldo
Pereira, Marco Antônio Villa, Merval Pereira, Pedro Bial, Júlio
Mosquera, Thais Oyama, Igor Gielow, Ana Dubuex, Délis Ortiz, Gerson
Camaroti, Eliane Cantanhêde, Fernando Gabeira e o empresário João Saad,
dentre outros. Minha jornada, como comandante, começou a partir da
indicação da presidente Dilma Roussef e do Ministro Jaques Wagner. A
ambos sou reconhecido.

Posteriormente, fomos honrados
com a permanência no cargo pelo presidente Temer, que dedicou grande
deferência às Forças Armadas e manifestou enorme confiança, evidenciada
pela complexidade das missões que nos atribuiu. No Ministério da Defesa
sucederam-se três amigos, Aldo Rebelo, Raul Jungman e general Silva e
Luna, que bem souberam nos representar politicamente e pleitear os
recursos necessários à manutenção da prontidão das Forças e ao
desenvolvimento dos projetos de modernização. Ao assumir o comando, de
imediato busquei inspiração em meus antecessores, generais Leônidas,
Tinoco e Zenildo, todos em memória, e os generais Gleuber, Albuquerque e
Enzo, cujas presenças agradeço.

O momento especial
vivido pelo Brasil se deve não somente aos protagonistas contemporâneos
como nós, mas também, a ações remotas empreendidas por eles, com
determinação, resiliência, firme ação de comando e liderança. Lograram
superar sucessivas dificuldades orçamentárias, políticas e ideológicas,
mantendo-nos coesos, apegados a nossos valores e identificados com a
Nação Brasileira. Nesses quatro anos fui ainda um expectador
privilegiado da ação de comando sobre suas Forças por parte do almirante
Eduardo Bacelar Leal Ferreira e pelo brigadeiro Nivaldo Luiz Rossato.
Com esses novos velhos amigos, nos identificamos e alcançamos total
integração. Quero ressaltar que diante de situações delicadas, que
exigiram tomadas de posição, o fizemos com respaldo mútuo.

Com
ambos e as queridas Cris e Rosa, vivemos momentos inesquecíveis de
compartilhada alegria e intensa amizade, que tenho certeza, enfeitará a
nossa vida para sempre. Igualmente desfrutei da camaradagem profissional
do Almirantado e do Alto-Comando da Aeronáutica, que em ligação com
seus correspondentes do Exército, foram facilitadores da integração das
ações de interesses comuns. No MD, a atuação das Forças foi
potencializada pela capacidade de coordenação do almirante Ademir, bem
como dos Secretários Gerais, inicialmente o próprio general Silva e Luna
e, posteriormente, o brigadeiro Amaral. Deles dependeu o atendimento
das necessidades orçamentárias e administrativas das Forças.

Volto
ao meu Exército, onde ingressei há 52 anos, precisamente no dia 15 de
março de 1967, inspirado em meu pai, artilheiro de boa cepa, e
estimulado por minha mãe, verdadeira mulher de soldado. Desde os 16 anos
de idade, vivi abrigado em uma instituição onde o sucesso profissional
jamais me exigiu abrir mão dos meus valores. Instituição de gente feliz,
realizada e comprometida, em ambientes saudáveis, onde,
despreocupadamente, minha família conviveu sob o manto da amizade e da
camaradagem. Trata-se de um Exército sempre presente nos mais remotos
rincões, a proporcionar estabilidade, segurança, defesa e ações em prol
do desenvolvimento econômico, científico, tecnológico e social.

Um
Exército democrático, apartidário e inteiramente dedicado ao serviço da
Nação, que desenvolve suas atividades em ambiente respeitoso, humano,
fraterno, digno, honesto, disciplinado, responsável e solidário. Um
Exército presente onde for necessário, defendendo a soberania, vigiando
as fronteiras, distribuindo água, abrindo estradas, protegendo índios,
preservando o meio ambiente, guardando as riquezas, assistindo a
população, garantindo a lei e a ordem ou promovendo a paz em nações
irmãs. Um Exército que ensina nas suas escolas, desde muito cedo, a
disciplina própria dos homens livres, que estimula a fraternidade, o
entusiasmo e a criatividade.

Um Exército em que sob a
aura do patriotismo acolhe a todos, igualando oportunidades,
independente de raça, credo, naturalidade, alinhamento político,
condição econômica ou nível social. Um Exército que objetiva
transformar-se por meio de projetos amplamente apoiados na indústria
nacional, na vanguarda da pesquisa e do desenvolvimento, geradores de
empregos e de avançadas tecnologias, sobre os quais repousarão suas
capacidades operacionais do futuro, as quais, por sua vez, darão
consistência à estrutura dissuasória do país.

Um
Exército no qual brasileiros de todos os rincões encontram proteção e
segurança, razão pela qual o elevam, ao lado da Marinha de Tamandaré e
da Força Aérea de Eduardo Gomes, à condição de Instituição com o mais
elevado índice de confiabilidade do País. Um Exército em que espero
jamais ter transmitido maus exemplos, porque nunca os recebi. Um
Exército em que apreciei, com muita felicidade, o profissionalismo e o
comprometimento dos oficiais e sargentos, cada vez mais ativos
protagonistas no preparo e no fortalecimento dos valores da nossa Força.
No universo militar há ainda um componente fundamental, indutor de
algumas características importantes de nosso ethos: as bandas de música,
Napoleão dizia: “Ponha uma banda na rua e o povo a seguirá para a festa
ou para a guerra”.

Eu próprio talvez não soubesse ser
militar e nem tampouco comandar sem a emulação de nossas canções e
dobrados. Inspirados pelo Gen Etchegoyen, criamos a função de Adjunto de
Comando (Sargent Major em outros Exércitos). O êxito dessa iniciativa
se deveu ao entusiasmo e ao engajamento dos nossos praças, que
entenderam e avançaram no potencial desse novo sistema e, sobretudo, à
atuação brilhante, à competência e à proatividade do Ten Crivelatti.
Devo a ele também um consistente assessoramento e o vislumbre de ações
que tornaram a existência dos adjuntos de comando irreversível. Na
pessoa do Ten Crivelatti agradeço e destaco a atuação de todos os
adjuntos de comando, pelo fortalecimento dos laços de liderança e
camaradagem nos ambientes onde atuaram. Minha ação de comando ancorou-se
no assessoramento de meus subordinados diretos, o que foi decisivo para
os eventuais êxitos.

No primeiro escalão estiveram
meus Chefes de Estado-Maior: generais Etchegoyen, Fernando e Paulo
Humberto, cujo critério de escolha respaldou-se na capacidade
profissional, no amor à profissão e na amizade pessoal, atributos que, a
bem da verdade, poderiam ser encontrados em todos os integrantes do
Alto Comando. Esse colegiado que, emblematicamente, reunia-se em torno
de uma távola redonda, onde as espadas unidas, simbolizavam nosso
compromisso diante dos valores mais elevados do Exército. Na mesma linha
posicionam-se meus assessores diretos, desde o chefe de gabinete, Gen
Tomás, importante contraponto e fator de equilíbrio das ações que
empreendemos, extremamente criativo e de enorme perspicácia. Por detrás
de nossas iniciativas operacionais, políticas ou estratégicas,
encontraremos sempre alguma contribuição desse amigo.

No
mesmo nível encontram-se o CIE, chefiado pelos generais Leme e Poty,
decisivo para o embasamento de minhas decisões. O CCOMSEx, sob a
liderança do Gen Rêgo Barros que preencheu todos os espaços possíveis de
comunicação interna e externa, alçando a Comunicação Social do Exército
a um elevado patamar na Era Digital e por fim a Secretaria Geral do
Exército, com os generais Pereira Gomes, Negraes e Montenegro,
infalíveis em suas ações, o Estado Maior Pessoal, chefiado pelos
coronéis Ermindo, Guedes, Allão e Nigri e a equipe de segurança,
chefiada pelo coronel Gilmar. O cumprimento de minha missão só foi
possível pelo desvelo desses oficiais e praças, que se multiplicaram em
atenções e providências criativas com o intuito de mitigar as limitações
pessoais decorrentes da minha doença. Foram determinantes também as
equipes de saúde, incluindo fisioterapeutas e fonoaudiólogos, tanto de
São Paulo, quanto em Brasília.

Em cada área contei com a
atenção e a perícia de alguns dos mais renomados médicos do Brasil: Dra
Lúcia, diretora do Hospital Sarah Kubitschek, Dr Acary, Dr Benny
Schmidt, Dr Antônio Carlos Lopes, Dr Paulo Muzzi, Dr José Bento, Dra.
Major Virgínia Satuf e Dr Ângelo Monesi. A todos, meu coração abriga na
condição de filhos ou de irmãos, com infinita gratidão. Cida, a quem de
novo me refiro como a minha segunda espada, parafraseando o general
Mascarenhas de Morais. Tua presença ao meu lado tornou-me possível
viver, prosseguir no comando e aqueceu o coração do Exército. Mais uma
vez, me dá a mão para juntos prosseguirmos em novas jornadas.

Quanto
a nossos filhos, Tici, Mano e Drika, felizmente, teu DNA é mais forte
que o meu. Lindos e que vieram ao mundo para torná-lo um lugar melhor.
Talvez eu nunca lhes tenha dito o quanto deles me orgulho, inclusive,
pelas famílias que constituíram. Por fim, nesse momento, embora
emocionado, sinto-me extremamente feliz, pela circunstância de estar
passando o comando do Exército de Caxias a um profissional que elevará
os níveis de desempenho da Força Terrestre, tanto no que diz respeito à
parte anímica, quanto na eficiência operacional, ancorado na evolução
tecnológica que vigorosamente persegue, bem como na interação com a
sociedade, respaldado em sua evidente e renomada capacidade intelectual,
na cultura profissional, na sólida liderança estratégica e na vasta
experiência. Amigo Leal Pujol.

Quando você olhar para
trás, me verá em forma, imóvel, coberto e alinhado a sua retaguarda,
como só os infantes sabem fazer, sob sua liderança, ansioso por
contribuir para a grandeza do nosso Exército, desejando, de coração,
absoluto êxito em sua gestão e muitas felicidades para você, Regina e
sua família. Que meu último ato como comandante seja um abraço de
gratidão em cada integrante do Exército de Caxias. Levo como principal
legado a saudade, porque, na minha alma, permanecerá esse vínculo com
todos aqueles que comigo ombrearam nesses 52 anos de caserna, eternizado
em cada sorriso e continência que me prestaram. Em meu coração ecoam
todos os brados que nos emulam: Selva! Força! Comandos! Precede!
Pantanal! Montanha! Aço! Aviação! Caatinga! Aeromóvel! Planalto! Pátria!
Sertão! Zum zaravalho! Brasil acima de tudo!