No universo atual de produções tanto televisivas/seriadas quanto cinematográficas é comum o famoso revival e/ou remake. Séries de TV conhecidas e queridas pelo público como Arquivo X, Gilmore Girls e Will & Grace já ganharam temporadas novas. Enquanto na listagem de remakes têm Charmed, One Day at a Time e até mesmo desenhos como é o caso de Carmen Sandiego. Com isso em mente, já fazia algum tempo que rumores sobre uma possível nova temporada de The L Word rondava os noticiários até que houve a confirmação no início deste mês de fevereiro.

O ano é 2004 quando Michele Abbott (Hector: Lost Souls with Switchblades), Ilene Chaiken (The Handmaid’s Tale) e Kathy Greenberg (Ratatouille) lançam para o mundo uma história que acompanha as vidas e os relacionamentos de um grupo de amigas LGBT vivendo em Los Angeles, assim como, de suas famílias que apoiam-nas ou as rejeitam.

Agora pense comigo no início dos anos 2000: as séries de TV, em sua maioria, sequer tinham algum personagem LGBT e quando surgia, ali meio escondido, utilizavam de forma negativa, para fazer piadas ou matar no meio do caminho (isto ocorria bem mais no caso de personagens femininas). Outro detalhe é que, nesta época, as séries mais marcantes que trabalhavam o tema era Will & Grace e Queer as Folk, a primeira sendo uma comédia, da NBC, quebrando paradigmas no quesito representatividade, e a segunda um drama, da Showtime, com maior foco em personagens masculinos.

Portanto, a Showtime, novamente, em 2004, decidiu investir em mais uma produção com temática LGBT só que desta vez totalmente focada em mulheres. The L Word foi e segue sendo de grande importância para o público feminino que se identifica dentro da comunidade. A criação de Abbott, Chaiken e Greenberg não se escondeu em nada e mostrou, em sua base fictícia se aproximando ao máximo que pode de uma realidade, a vida e o dia a dia de mulheres homossexuais, bissexuais e até mesmo procurou trabalhar assuntos como a transexualidade em temporadas mais a frente.

A narrativa é um drama puxado, não espere diversão e alegrias constantes em todos os episódios, pois a dramaturgia explora todos os cantos possíveis para fazer até um capricorniano coração de gelo chorar. Preconceitos, problemas familiares, doenças, traições, intrigas, entre outras coisas a mais, podem ser vistos em todas as suas seis temporadas. O roteiro é intrigante e possui uma trama chamativa, atraente e difícil de largar uma vez que se começa a acompanhar.

Quanto aos seus personagens é possível ama-los e até mesmo odiá-los na semana seguinte. É uma verdadeira montanha-russa emocional e alguns, em tempos modernos, precisariam ser repensados, afinal, no quesito tratamento para com o outro não representam tantos pontos positivos – um caso a se pensar quando se trata de Shane McCutcheon (Katherine Moennig) que estará no revival.

Outro nome difícil de esquecer é o de Alice Pieszecki (Leisha Hailey), a jornalista bissexual – que todo mundo esqueceu que era bi ao longo da série – que provoca algumas intrigas e criadora do “rebuceteio” (entendedores entenderão). Ademais, Alice tem arcos muito interessantes sendo um deles com Tasha Williams (Rose Rollins) justamente na época em que o EUA debatia sobre as políticas do “don’t ask, don’t tell”, na trama a namorada passa por um julgamento por ser uma mulher lésbica dentro do exército americano.

Outro nome confirmado no retorno da produção é o de Jennifer Beals, a famosa Bette Porter. Confirma-la, mas não confirmar Laurel Holloman, a querida Tina Kennard, é como dizer que teremos Romeu, mas não Julieta. Tibette é o casal mais amado da narrativa e viveu poucas e boas durante todo seu tempo no ar. Entretanto, o importante é que no final elas, finalmente, ficaram juntas. Seguimos na torcida para que 15 anos depois ainda estejam neste patamar.

Ademais, a criação de Abbott, Chaiken e Greenberg deixou um gancho enorme em sua series finale com a não solucionada morte de Jenny Schecter (Mia Kirshner) e suas protagonistas sendo interrogadas. Todas tinham um motivo para realizar o crime, entretanto, o público seguiu sem uma solução. Seria essencial que esta questão fosse adereçada no retorno mesmo que depois de tanto tempo, pois os telespectadores merecem este ponto final.

Bom, The L Word contribuiu em muitos quesitos para a comunidade LGBT, principalmente por trazer uma abordagem focada totalmente em mulheres que até então não tinham muitas vozes representativas positivamente dentro das produções audiovisuais. Foi o momento em que muitas pessoas começaram a se ver na TV e quebrar certos tabus e/ou preconceitos criados na sociedade. Não que a série tenha feito a maior diferença no mundo, afinal, ainda é preciso lutar por muitas questões diferentes. Mas é fato que ela abriu caminho para que outros roteiristas começassem a investir nesses personagens que representam tantas pessoas.