Alunos deixam a escola Marjory Stoneman Douglas após o tiroteio

Alunos deixam a escola Marjory Stoneman Douglas após o tiroteio
Giorgio Viera / EFE / 14.2.2018

O 14 de fevereiro de 2018 começou no colégio Marjory Stoneman Douglas, em Parkland (Flórida), como qualquer outro Valentine’s Day em uma escola dos EUA: jovens carregando chocolates e ursos de pelúcia para entregar aos namorados ou namoradas. É assim que a brasileira Kemily dos Santos Duchini, 17, lembra daquela manhã. Uma recordação leve interrompida, como naquele dia, por uma tragédia: o massacre a tiros de 17 pessoas, cometido pelo ex-aluno Nikolas Cruz.

“Era um Valentine’s Day normal, mas olhando para trás, tinha algo estranho no ar”, conta ela, um ano depois de testemunhar o terceiro maior tiroteio escolar já registrado nos EUA, cuja consequências reverberam tanto na vida de Kemily, como na cena política norte-americana.

A estudante brasileira lembra que faltava meia hora para a aula acabar quando escutou os primeiros disparos e depois o alarme de incêndio.

“Quando escutamos os tiros, um olhou para a cara do outro, ninguém falou nada. Todos nos levantamos e fomos para o canto da parede rente à porta. Nós somos treinados para a fazer isso porque, caso o atirador fosse até a porta, não conseguiria ver que tinha gente na sala”

Os barulhos dos tiros foram ficando mais altos, à medida que Nikolas subia as escadas para o segundo andar, onde Kemily estava. “Ele atirou na sala em frente à minha, mas ela estava vazia.”

Questão de minutos

No dia seguinte à tragédia, Kemily e sua mãe, Fabiana, concederam uma longa entrevista em vídeo ao R7 sobre o massacre. Um ano depois, as duas narram os fatos como se o tempo não tivesse passado.

Mas só agora, a jovem consegue perceber que demorou a entender que sua vida e a de todos ali estava em perigo. Kemily só se deu conta do que estava acontecendo quando os amigos mandaram fotos da transmissão na televisão para ela.

“Eu não quis falar para ninguém porque tinha muita gente chorando. Eu não queria que eles fizessem mais barulho e colocassem as nossas vidas em risco.”

Ela conta que foi a primeira da sala a perceber o que estava acontecendo, porque a professora havia pedido para que eles não mexessem no celular para não fazer barulho.

Ao todo, a ação do atirador de Parkland durou 6 minutos, que foram remontados pelas autoridades da Flórida apenas em dezembro. As investigações apontam diversos erros de procedimentos, que custaram vidas.

Kamily conta que a professora havia comentado que naquela semana tinha ocorrido uma reunião na escola sobre como melhorar a segurança do local e que queriam fazer uma simulação de um tiroteio com a polícia da cidade para ensinar aos alunos e aos professores o que fazer nessas situações.

‘Isso não sai da minha cabeça’

Fabiana dos Santos Duchini, 42, empresária e mãe de Kemily, só soube do que estava acontecendo quando a filha mandou uma mensagem para ela.

Ela conta que quando recebeu a mensagem da filha, pediu para que a menina se escondesse e continuasse falando com ela, mas Kemily só retornou o contato uma hora depois. “Fiquei em pânico, desesperada”

“Graças a Deus nada aconteceu com ela, mas fico muito triste pelas outras mães, as outras famílias. Isso não sai da minha cabeça”, afirmou Fabiana.

Kemily terminou o ano na mesma escola, mas desde o começo deste ano a menina está estudando em casa. “Aqui nós temos essa opção, então por segurança optei por isso”, afirmou Fabiana.

Debate sobre a posse de armas nos EUA

Após o massacre de Parkland, o debate sobre o controle de armas nos EUA voltou à tona. Os alunos da Marjory Stoneman Douglas protagonizaram uma marcha em Washington contra a posse de armas no dia 24 de março, que ficou conhecida como March For Our Lives — a Marcha pelas Nossas Vidas.

Alguns dos sobreviventes de Parkland tomaram a frente do movimento, como Emma Gonzalez, Cameron Kansky e David Hogg, e chegaram a confrontar o presidente norte-americano, Donald Trump sobre a questão.

Mas enquanto a comunidade da Marjory Stoneman Douglas é reconhecida como um bastião pelo controle da venda e posse de armas nos EUA, Kemily e Fabiana caminham na direção contrária.

Mesmo tendo presenciado o massacre, Kemily não é contra as pessoas terem armas. “Na minha opinião, as pessoas têm o direito de ter, só precisa ter um controle maior sobre quem está comprando”, afirmou.

Fabiana compartilha da mesma opinião que a filha e continua a favor da posse de armas. “Eu continuo apoiando.”

Nicolas Cruz, autor dos tiros que deixaram 17 pessoas mortas está esperando o julgamento, mas já foi formalmente acusado pelos assassinatos.

Até o momento, nenhuma grande mudança foi feita sobre a legislação de armas no país.

Relembre as vítimas do massacre na escola de Parkland, na Flórida:

*Estagiária do R7 sob supervisão de Cristina Charão