Versão Mattel do Nintendinho (crédito: Matthew Paul Argall)

Ainda tem muita gente lamentando o fato de a Nintendo ter “saído” do Brasil, sendo que a japonesa nunca esteve de facto no país: a Big N quase sempre esteve presente no Brasil através de representantes. Bom, podia ser pior.

Há países em que somente uma ou mesmo nenhuma das grandes fabricantes de consoles estão presentes para distribuir de forma oficial os aparelhos e jogos. Tem sido o caso da Índia quanto a fabricante japonesa: o último console da Nintendo lançado oficialmente por lá foi o NES, no final da década de 80.

O responsável pela única representação indiana da Nintendo foi um distribuidor local chamado Samurai. Mesmo com lojas espalhadas pelo país, infelizmente tal representante mal conseguia vender de 200 a 300 unidades por mês do Nintendinho. O vilão era aquele mesmo, o preço mais elevado que o do mercado cinza.

Chegou a chance de distribuir o SNES e nem o Samurai e nem mais ninguém quis representar a Nintendo por lá. Nem mesmo quando o mercado indiano abriu as portas para empresas estrangeiras poderem (re)estabelecer filiais locais, em 1993. Dois anos depois, no início da quinta geração de consoles (32 bits), a Shaw Wallace Electronics se comprometeu a representar a SEGA na Índia. E, claro, fracassou: como vender Mega Drive se o mercado cinza oferecia o primeiro PlayStation a preço semelhante e com aquela pirataria marota?

Não deu outra: por muito tempo, os gamers indianos conviveram com a pirataria, mercado cinza e… clones.

O que a Índia tem em comum com o Brasil? A Nintendo também nunca esteve lá

Little Master, uma versão pra lá de alternativa do SNES (crédito: Supriyaa Uthaiah)

Corta para outubro de 2006: buscando novos mercados, a Microsoft lança o Xbox 360 de forma oficial na Índia. Em resposta, seis meses depois a Sony local decide lançar o PlayStation 3 no país. Com o sucesso estrondoso do Wii e presença forte das concorrentes, na época poderíamos apostar que a Nintendo voltaria a ter representação naquele país, certo?

Errado. Mesmo com o Nintendo Wii vendendo muito bem pelo mundo, na Índia o console só chegou por meio de contrabando mesmo. Veio a oitava geração e tanto a Microsoft quanto a Sony conseguiram lançar Xbox One e PlayStation 4 na Índia nas primeiras levas, enquanto a Nintendo não tomou nenhuma atitude quanto a tal mercado. E aparentemente não o fará tão cedo.

Veja bem, com o sucesso do Switch nestes primeiros nove meses de vendas, gostaríamos de imaginar que a Nintendo investirá em novos mercados. Deu certo com o PS4, console da Sony que tem uma logística invejável e está presente em no mínimo uma centena de mercados mundo afora: o PlayStation 4 não só fez bastante sucesso nos mercados maiores como está presente de forma oficial, mesmo que timidamente, em mercados pequenos como a Índia.

Sim, apesar de a Índia possuir mais de um bilhão de habitantes, ela é considerada um mercado pequeno para consoles. No caso da Sony, a filial local estima uma base instalada de aproximadamente 250 mil consoles e isso incluindo o mercado cinza. No Oriente Médio, por exemplo, o PS4 ultrapassou um milhão de consoles. Em 2015.

Mesmo forte, a Microsoft local tem dificuldades em vender o Xbox One na Índia. Depois de 30 anos ignorando o mercado indiano, por que a Nintendo se arriscaria a voltar lá?

Retornando ao Brasil, outro mercado onde a Nintendo nunca esteve de facto, não temos números exatos nem oficiais das vendas de consoles, mas o mercado de games aqui é bem maior que o da Índia. Então podemos ter esperança ao vermos o Brasil como região no site oficial da Nintendo, certo?

O que a Índia tem em comum com o Brasil? A Nintendo também nunca esteve lá

O tio Laguna não consegue ser assim tão otimista. Nosso país tem uma carga tributária tão elevada e tão confusa que mesmo com fabricação local é complicado competir com o mercado cinza. Fora a obrigação de SAC em todo o país e assistência técnica com cobertura nacional. Já foi pior, mas a Nintendo é bastante conservadora nesse sentido.

Como diria um certo executivo de outra empresa de tecnologia que não tem nada a ver com a Big N:

Não podemos nem exportar os nossos produtos com a política maluca de taxação superalta do Brasil. Isso faz com que seja muito pouco atraente investir no país. Muitas companhias high tech se sentem assim”. — Steve Jobs, em março de 2010

Quase oito anos se passaram e nada mudou no Brasil nesse sentido. Só vieram “reformas” que apenas beneficiam meia dúzia de empresários, mas o povo que se vire para pagar uns 20 impostos diferentes, alguns deles sobre outros impostos. A Nintendo nunca quis entender essa maluquice e sempre preferiu usar representações no país. Gostaria de estar errado, mas não acredito que a Nintendo per se vá desembarcar no Brasil um dia. Até a quase-trilionária Apple já arrumou parte das malas para sair daqui.

Enquanto alguns fãs creem no “retorno” da Nintendo ao Brasil, vou continuar a comprar digitalmente jogos de outras regiões para o Switch. Mesmo a eShop brasileira do 3DS tinha jogos faltando e preços absurdos.

Fonte: The Next Web.

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