O Japão tem uma das cidades mais densamente populosas do mundo, e cidadãos têm um argumento para respeitar o espaço das pessoas

O Japão tem uma das cidades mais densamente populosas do mundo, e cidadãos têm um argumento para respeitar o espaço das pessoas
Konstantin Kalishko/Alamy

Era 1h em Tóquio e tentávamos entrar em um apartamento. Tínhamos nos perdido tentando encontrar nosso Airbnb e chegamos a um endereço que parecia ser o certo. Como era de madrugada, aquilo já era próximo o suficiente para nós. Havia chaves na caixa do correio, onde nosso anfitrião disse que elas estariam. Como o código de segurança não funcionou, eu coloquei minhas mãos no buraco para agarrá-las.

Você pode até pensar que deveríamos ter parado para avaliar a situação, mas fomos alimentados pelo tipo de determinação que vem de um voo de 12 horas seguido por uma peregrinação de transporte público. Eu estava perto de conseguir pegar as chaves quando a porta se abriu e revelou uma senhora de camisola e sua filha olhando para nós com espanto. Definitivamente não era o nosso Airbnb.

Surpreendentemente, em vez de gritar, chamar a polícia, ou ambos, elas passaram os 20 minutos seguintes tentando nos ajudar a encontrar o endereço certo. Isso sem falarmos uma palavra de japonês e elas sem falar inglês. Ao final, quando não conseguimos avançar, elas formalmente se desculparam. E isso porque éramos gaikokujin, ou estrangeiros, que acabaram de tentar invadir sua casa.

As expressões japonesas para se desculpar são comuns, frequentemente vistas como mera modéstia, na melhor das hipóteses, ou, na pior, como uma autoflagelação desnecessária. E de fato desculpar-se pode parecer um estilo de vida no Japão. Há gestos específicos para pedidos de desculpas: por exemplo, uma mão contra a testa é tanto um pedido de desculpas quanto uma maneira de idosas atravessarem multidões, como pequenos navios de guerra num mar de gente.

Há ainda inúmeras maneiras de se desculpar. Pelo menos 20, de acordo com o BBC Explainer (em inglês). A mulher em nosso “não-apartamento” usava a versão mais formal, gomen-nasai, mas o mais comum é sumimasen, que ouvi ser a palavra mais útil a se aprender naquela viagem. Traduzido aproximadamente como um pesaroso ‘com licença’, o termo sumimasen está pendurado em portas, táxis, lojas e restaurantes, deixando o ‘arigatou’ (obrigado) no plano de fundo. Isso pode gerar uma suposição de que os japoneses se desculpam por tudo.

Palavra cotidiana

De acordo com Laurie Inokuma, graduada em língua japonesa pela Universidade Cornell e que trabalhou para a Japan Airlines por 15 anos, isso não é verdade. Sumimasen, por exemplo, não está substituindo o arigatou – está na realidade tornando-o mais abrangente.

“Apenas 10% de sumimasen são um pedido de desculpas. Noventa por cento servem para demonstrar respeito, gentileza e honestidade”, disse Inokuma. “É uma palavra cotidiana. Quando alguém faz algo por você, como sair do seu caminho no mercado ou segurar uma porta, ‘ah, sumimasen é uma resposta comum”.

Como um simples “obrigado” ou “desculpe”, sumimasen é bastante usado para reconhecer o esforço que alguém fez por você. “Há humildade no ato; dependendo da situação, é tanto um pedido de desculpas quanto de agradecimento”, disse Inokuma.

Erin Niimi Longhurst, autor do livro Japonisme – que explica como as tradições japonesas podem ajudar a criar uma vida mais contemplativa – concorda. “Há uma cultura da desculpa, mas também uma cultura da gratidão.”

Cortesia na Copa

Uma das minhas histórias favoritas é de quando uma tia britânica encontrou uma senhora japonesa numa conferência e a convidou para uma jantar de família. Essa mulher nos trouxe presentes lindamente embrulhados, todos do Japão. Havia até presentes para meu irmão e minha irmã muito mais novos. Ela não tinha ideia de que seria convidada de última hora para o jantar, mas trouxe com ela lembranças e papel de presente, caso precisasse. Foi incrível.

A Copa do Mundo deste ano foi um exemplo ainda mais claro desse nível de cortesia: quando o Japão perdeu seu jogo final, a equipe ganhou as manchetes porque limpou todo o vestiário. Ela deixou inclusive um recado de agradecimento.

Portanto, se as desculpas são apenas uma engrenagem da grande roda em movimento na polidez japonesa, de onde vem esse conceito cultural que se tornou tão abrangente?

“Há uma necessidade de polidez no Japão para se conviver com os vizinhos, é um respeito pelos outros”, diz Inokuma. Em Tóquio, quando vemos uma multidão se movendo educadamente em longas filas para entrar no parque Shinjuku Gyoen, ou em direção à margem do rio Nakameguro na estação das cerejeiras, isso faz sentido.

O Japão tem algumas das cidades mais densamente populadas do mundo, e uma população urbana de 93,93%. Tóquio, por exemplo, tem cerca de 6.150 pessoas por quilômetro quadrado, em comparação com os 5.729 de Londres (isso inclui os extensos subúrbios de Tóquio – a maior parte dos residentes está concentrada no centro da Grande Tóquio, a área metropolitana mais populosa do mundo, com mais de 2,4 milhões de viagens diárias).

O espaço médio por pessoa é de 22 metros quadrados ao longo do país, mas de 19 metros quadrados em Tóquio. Nós experimentamos isso na pele quando nos hospedamos em apartamentos unanimemente impecáveis, aconchegantes – e incrivelmente minúsculos. Quando o espaço se torna artigo de luxo, de repente parece natural tornar-se tão atencioso com o espaço alheio.

“Há esse respeito pelo espaço de outras pessoas”, afirma Longhurst. “Quando você entra numa residência japonesa, você sempre tira os sapatos – uma separação de interno e externo. Também há uma atitude de meiwaku, ou seja ‘desculpe incomodar’ ou ‘desculpe entrar em seu espaço'”.

Gentileza cultural

Mas essa profunda gentileza não é apenas uma adaptação a vizinhanças abarrotadas. Quando saímos das cidades para a tranquilidade dos Alpes japoneses, as pessoas eram ainda mais educadas. Fomos a Kamikochi, um vale montanhoso que estava fechado a veículos naquela estação. Por isso, fizemos uma caminhada extenuante de duas horas, o que geralmente levaria dez minutos de carro. Valeu a pena o passeio, mas quando um funcionário ofereceu nos levar de volta de carro, quase choramos de alívio. No dia anterior, no caminho de ônibus à nossa Okuhida ryokan (tradicional hospedagem japonesa), esqueci meu celular no veículo e só me dei conta horas depois. O motorista do ônibus o encontrou e entregou-o pessoalmente, depois de buscar meu endereço no serviço Find My iPhone.

No livro Japonisme, Longhurst explora a relação entre a cultura moderna japonesa e suas tradições. Para ela, o hábito de se desculpar – e a cultura da polidez da qual ela faz parte – pode se resumir ao conceito de atenção plena (mindfulness). “A essência de muitas práticas japonesas é ter um relacionamento consigo mesmo e com o mundo natural. Em situações como a cerimônia do chá, trata-se de ter uma consciência de onde se está em um momento específico no tempo. Serve-se chá, mas o que importa não é apenas o chá, mas o arranjo de flores no canto que vai dar a noção da estação, a caligrafia na parede que vai mencionar a época do ano. O ponto principal é ter consciência de onde se está em um momento específico, e isso transparece em como as pessoas interagem umas com as outras”.

A popularidade de casas de chá nas atrações turísticas do Japão é prova disso. Vagando pela vila de Okochi-Sanso, em Kyoto, em vez de seguir para a próxima vista imponente, terminamos com uma xícara de chá olhando por uma janela de bambu. Foi um momento de tranquilidade bem diferente da multidão de selfies do lado de fora do bosque de bambus, no distrito de Arashiyama. Um alívio ao turista que mal pode respirar.

De volta a Tóquio, Hidetsugu Ueno, dono do Bar High Five, concordou que a atenção plena explica em parte a cultura da desculpa no Japão, mas acrescentou que isso anda de mãos dadas com a empatia. “Claro que não queremos nos desculpar se não precisarmos. Mas podemos nos colocar no lugar de outras pessoas e sentir muito por elas, então queremos dizer isso em voz alta”, afirmou.

A prática da atenção plena inclui estar ciente de outras pessoas em seu entorno, mas pedir desculpas também vem de uma habilidade emocional mais ampla de entender os sentimentos dos outros. A taxa de criminalidade do Japão sustenta isso – o país é conhecido por seu baixo índice de violência, apresentando algumas das mais baixas taxas de homicídio do mundo.

Como Ueno disse: “Há crimes aqui no Japão. Nós não somos monges. Mas se vemos uma carteira na rua, a maioria dos japoneses a levará para a delegacia. Sabemos o quanto as pessoas sofrem quando perdem a carteira. Se você pensar sobre isso acontecendo com você, você deve saber como reagir. Aprendemos isso quando somos crianças pequenas na escola”.

É um cenário da galinha e do ovo: essa empatia cultural nasce da moralidade, ou vice-versa? As crianças nas salas de aula japonesas têm tido lições de “educação moral” desde 1958, ensinando a importância de cooperar para o benefício de todos, um conceito que diz-se ter originado com os samurai.

“Isso tem relação com essa histórica cultura samurai, mas muito também vem de querer preservar uma dinâmica de grupo, assim como da ideia de fazer algo para o bem dos outros”, explicou Longhurst. Basta lembrar do Fukushima 50, um grupo de trabalhadores idosos que ficou para ajudar a reparar a usina nuclear de Fukushima após o devastador tsunami de 2011, para entender esse efeito nos dias de hoje.

No Japão, é evidente que pedir desculpas é uma panaceia, refinada em sua própria e complexa língua. Mas essa língua também é um espelho da cultura mais ampla do Japão. Aqui, ‘desculpe’ é a janela para uma mistura labiríntica de polidez, respeito e moralidade. Ela parece ser explicada, de um lado, pelas realidades de se viver em uma nação insular lotada e, de outro, da aderência à regra de tratar os outros como você gostaria de ser tratado.

“As complexidades da cultura e da língua estão interligadas. Meu marido diz que polidez e respeito estão no DNA japonês”, Inokuma refletiu.

Mas para mim, foi Ueno quem resumiu melhor. “As pessoas devem ser honestas, devem ser gentis, devem ser sinceras. As pessoas deveriam ser assim, não?”

Leia a versão original desta matéria (em inglês) no site da BBC Travel.