A Microsoft, como toda empresa vira e mexe ataca seus concorrentes, de modo a promover seus produtos e conquistar o consumidor; às vezes ela faz isso bem, e outras vezes, ela mete os pés pelas mãos e desagrada muita gente.

No entanto, em uma estranha semana, a companhia de Redmond apontou seus canhões para um adversário um tanto inesperado: ela própria.

Insomniac Games / Marvel's Spider-Man / Microsoft

Não é segredo que nos últimos cinco anos, com Satya Nadella no posto de CEO, a Microsoft teve suas entranhas reviradas e se converteu de companhia fornecedora de produtos e soluções para uma empresa de serviços, e isso se reflete em todos os seus setores.

Com a filosofia “Microsoft Como um Serviço”, com foco em Nuvem, IA e mercado corporativo, Nadella conseguiu elevar o valor da Microsoft, de US$ 300 bilhões em janeiro de 2014, para US$ 820 bilhões em janeiro de 2019. Logo, alguma coisa nosso indiano favorito está fazendo certo.

De lá para cá, o Windows foi convertido em um SO de maior vida útil, que recebe atualizações massivas a cada semestre, o Office recebeu uma versão como um serviço de assinatura, e cogita-se até a migração da Xbox Live para outros sistemas, o que poderia levar ao fim da plataforma Xbox enquanto produto final (se isso acontecer mesmo, só será depois do Scarlet).

Isso sem falar no foco em serviços de grande porte, como o Azure e até o Linux, seja para infra de grandes corporações, ou para controlar dispositivos da Internet das Coisas.

O usuário final deixou de ser o centro das atenções da Microsoft, mas isso não significa que ele foi abandonado. Ele tem à sua disposição uma série de produtos e serviços, e esse é o problema: a companhia não foi muito diligente no passar dos anos, e acabou criando produtos redundantes. O Microsoft Edge, o navegador mais rápido do mercado (segundo a Microsoft) disputa espaço no Windows 10 com o Internet Explorer, que ainda vem pré-instalado.

Ao mesmo tempo, a companhia mantém dois produtos distintos da família Office, essencialmente iguais: o tradicional Office 2019, que oferece uma instalação permanente através de uma licença única, e o Office 365, o serviço de assinatura que garante atualizações constantes e outros mimos, como 1 TB de espaço no OneDrive e 60 minutos de ligações mensais do Skype. Outra vantagem, o 365 oferece instalações ilimitadas para um usuário na versão Personal, ou até seis na versão Home.

Do ponto de vista da Microsoft, vale muito mais a pena que os usuários migrem para o 365, de modo a pagarem constantemente para usar o software, e exatamente por isso, lançou nesta semana três comerciais nos Estados Unidos, em que três duplas de gêmeos são colocados para fazer tarefas simples, com um(a) usando o Office 2019, e o(a) outro(a) trabalhando no Office 365.

Abaixo, você confere a peça publicitária do PowerPoint 2019 vs. PowerPoint 365:

Você confere os outros comerciais aqui (Excel) e aqui (Word). A vantagem da suíte 365 sobre a tradicional é óbvia, a primeira é constantemente atualizada e conta com mais recursos.

Já com o Internet Explorer, a Microsoft pratica a tática do desapego: o navegador não é atualizado a anos, e é mantido no pacote do Windows 10 única e exclusivamente para fins de suporte legado; a empresa abomina a ideia dele ser utilizado como browser padrão, especialmente por clientes corporativos (que é onde está focada hoje), e recomenda de forma explícita aos consumidores que não façam isso.

Para todos os fins e feitos legais, o Microsoft Edge é o navegador recomendado e endossado pela Microsoft, e o Internet Explorer só não morreu ainda porque a companhia acredita que ele seja útil para desenvolvedores; enquanto isso, a Microsoft anunciou o Projeto Anaheim, um navegador que usará a base do Projeto Chromium, o mesmo código do Google Chrome, e ele poderá ou ser um produto novo, ou uma nova versão do Edge. Talvez a Microsoft até corrija os problemas do Chrome, quem sabe.

O grande problema com o Internet Explorer e o Edge, assim como entre o Office 365 e o Office 2019, é a falta de tenência de Redmond para fazer o óbvio, que é matar ambos produtos legados de uma vez por todas, seja porque um ainda vende, ou porque o outro ainda é usado por developers developers developers.

Enquanto isso não acontecer (se é que vai acontecer um dia), continuaremos a ver a Microsoft sendo obrigada a atacar a si mesma, para forçar os consumidores a utilizarem versões melhores e mais modernas de seus produtos.

Com informações: Microsoft (aqui e aqui), Ars Technica.

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