“Quem acredita sempre alcança”, já diria o músico e compositor Renato Russo. Pois parece que essa é a filosofia que rege grande parte dos homens, que tendem a confiar tanto no próprio sucesso que até conseguem elevar os níveis de testosterona sintetizados pelo próprio corpo.

É isso que indica estudo realizado por antropólogos biologistas da Universidade de Cambridge (Inglaterra), publicado no periódico científico Human Nature. De acordo com a pesquisa, a autoconfiança em indivíduos do sexo masculino está atrelada a um aumento na produção de testosterona, o que, por sua vez, torna-os mais inclinados a se aproximar de novos parceiros sexuais em potencial.

Ainda que estudos anteriores tenham identificado que vencer competições pode afetar os níveis de hormônios masculinos, não se sabe se essa mudança está relacionada ao fato de ser um vencedor ou aos esforços empreendidos para competir — e foi justamente isso que os pesquisadores de Cambridge quiseram averiguar.

Os cientistas selecionaram 38 voluntários homens na faixa dos 20 anos de idade. Cada um deles teve seus níveis hormonais medidos antes e depois de uma prova física em que todos deveriam se enfrentar individualmente em um sala com simuladores de remo. Também foi avaliada a autopercepção de atratividade que cada participante tinha em si mesmo e a confiança com que abordavam mulheres.

Propositalmente, os pesquisadores decidiram fraudar os resultados da prova e declarar o vencedor mais forte aleatoriamente, independente de quem de fato fosse o mais forte.

Foi assim que perceberam que apenas o fato de acreditar ser um vencedor ou um perdedor faz com que homens enfrentem flutuações hormonais de testosterona e que isso, por sua vez, pode afetar no jeito que eles expressam seus comportamentos sexuais.

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Os antropólogos acreditam que isso é um exemplo de “plasticidade”: o corpo se adapta rapidamente — sem alterar sua composição genética — para se adequar a mudanças circunstanciais. Nesse caso em particular, uma mudança percebida em seu status social faz com que o indivíduo do sexo masculino acredite que derrotou um rival.

Em consequência, o corpo tenta tirar proveito da melhora do status e induz mudanças químicas e comportamentais que promovem uma abordagem a curto prazo para o sucesso reprodutivo do homem. Ou seja, mais sexo com parceiros novos e diferentes.

“Grande parte da evolução consiste em compensações no investimento em energia”, afirmou o cientista e autor do estudo Danny Longman, do Departamento de Arqueologia de Cambridge. “Uma compensação comum para machos da mesma e de diferentes espécies são as estratégias de acasalamento. Há a abordagem reprodutiva de curto prazo, que resulta em investir tempo e energia para atrair e perseguir parceiros e lutar contra a competição. Ou há as abordagens de longo prazo, que significam investir energia em criar uma prole com um parceiro somente”. 

O pesquisador ainda aponta que, em muitas populações de animais, as hierarquias sociais masculinas correspondem ao sucesso reprodutivo e que o status social é determinado pela competição entre os machos.

E foi exatamente isso que Longman e sua equipe decidiram conferir durante a prova nos simuladores de remagem. De acordo com eles, a vitória em uma competição de remo implica fortemente em avaliar quem possui maior força física, uma característica valorizada pelas fêmeas em nosso passado evolutivo quando o objetivo era escolher um parceiro.

Foi avaliado que os homens que acreditavam que haviam ganho a prova tinham enfrentado um aumento médio de 4,92% em seus níveis de testosterona, enquanto os que tinham certeza que haviam perdido apresentaram uma média de queda hormonal de 7,24%. Isso quer dizer, então, que os que confiavam na vitória contavam com uma taxa de testosterona aproximadamente 14,46% maior do que seus adversários perdedores.

Consequentemente, os participantes que se sentiam vencedores tinham um valor de autopercepção, em média, 6,53% mais elevado de que seus rivais e 11,29% mais chances de abordar mulheres que considerassem atraente para iniciar uma relação sexual.

“O sistema endócrino que controla os hormônios é sensível às mudanças situacionais. Pesquisas anteriores mostram que a testosterona é menor quando os homens estão em um relacionamento comprometido, ou têm filhos, para promover estratégias de acasalamento de longo prazo”, afirma Longman.

Isso tudo quer dizer, então, que uma mudança no status social pode fazer com que a fisiologia masculina se adapte, se preparando para mudar suas estratégias de acasalamento e otimizar o sucesso reprodutivo.

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