Nas áreas montanhosas e ensolaradas do estado de Guerrero, no México, um campo de papoulas cresce livremente. A planta é a responsável pela renda e sobrevivência de fazendeiros, que vêem os preços da pasta de ópio, que se torna a base da heroína, despencarem. Mesmo com o anúncio do fim da guerra as drogas pelo presidente Andrés Manuel López Obrador, as famílias não sabem como vão conseguir se manter, já que a área é infértil para outras plantas

A área das plantações de ópio supera o estado americano da Filadélfia. Mesmo com a alta produção, o preço da flor chega a 260 dólares, metade do que os traficantes e gangues mexicanas pagavam há dois anos atrás. Enquanto os traficantes americanos ainda faturam alto com a exportação da droga para os Estados Unidos, o fazendeiro Santiago Sanchez se preocupa em como alimentar a família e comprar roupa para as crianças

Sanchez é o líder local da vila de Juquila Yucucani, onde centenas de fazendeiros plantam ópio e se preocupam com a queda do preço da planta, principal fonte de subsistência da região. “Nós não podemos continuar vivendo assim, mal conseguimos pagar pela nossa comida”, explica

Guerrero é um dos estados mais pobres do México, e agora também é um dos mais violentos. A política de guerra as drogas e o conflito entre traficantes e gangues impulsionaram os ataques e acidentes da região

Com o fim da guerra às drogas, Obrador agora tem que se preocupar com as populações marginalizadas e que vivem perto da fronteira com os Estados Unidos. Ele também planeja criar uma nova Guarda Nacional militarizada e mudar a política de plantação de drogas. Em visita ao estado, ele sugeriu plantio de milho e outros grãos para substituir as plantações ilegais de ópio

Os fazendeiros de Guerrero não se consideram criminosos e alegam que o exército destrói tanto as plantações de ópio quanto a de comida do local. Grupos de direitos humanos já denunciaram as forças armadas por abuso de poder e violência no estado

Grandes contingentes do exército foram deslocados para a região, para ficar de olho na violência local e destruir as colheitas de ópio das montanhas

Os exércitos queimam e cortam as plantações, destruindo o solo, que já é árido, para evitar que os fazendeiros tentem plantar mais ópio ou outras sementes

Sanchez afirma que tentar plantar outra coisa no vilarejo não é uma boa ideia e que poucas plantas conseguem crescer na região. Árvores de manga e abacate demoram anos para conseguir amadurecer e gerar frutos, e as estradas complicadas de Guerrero dificultariam o transporte das frutas ao mercado

A região serve de plantação de ópio há décadas. Nieves Garcia, uma idosa da vila de Juquila Yucucani, conta que planta ópio desde criança: “Nós não somos traficantes, nós só queremos uma vida digna. Meus filhos tiveram que ir embora daqui porque não existem opções”