Bush ajudou a elaborar políticas da Era Reagan

Bush ajudou a elaborar políticas da Era Reagan
Reprodução/Wikimedia Commons/Flickr/2010

George Herbert Walker Bush, que morreu na última sexta-feira (30), aos 94 anos, foi um dos alicerces do que é hoje o atual Partido Republicano, com seu neoliberalismo conservador.

As solenidades em torno de sua morte são mais uma demostração de que, sempre que um ex-presidente dos Estados Unidos morre, uma áurea de reverência se instaura nos quatro cantos do país.

Independentemente de seu perfil político, o ex-mandatário se torna uma instituição, por si só. Que carrega em si um legado e o identifica com as características da era em que atuou, tornando-o, se não o maior, um dos principais símbolos desta era.

Com George Bush pai, cujo enterro será no próximo 5 de dezembro, em “dia de luto nacional”, a marca que fica de seu mandato (1989-1993) é a de um reordenamento das forças conservadoras durante o colapso da União Soviética e do fim da Guerra Fria.

Para o velório, o presidente Donald Trump enviou especialmente o Boeing 747 presidencial para buscar o caixão e levá-lo do Texas a Washington.

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George Bush estava na cúpula do governo que comandou o famoso Consenso de Washington, uma cartilha ultraliberal estruturada, em 1989, pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que se espalhou pelo mundo.

Acolhido inicialmente por governantes como a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1979-1990), o Consenso se prolongou por anos, até um período de recuo. E, sob a forma de neoliberalismo, voltou com força nos tempos atuais.

Também foi com ele que se iniciou nova fase da política externa americana. Mesmo não tendo invadido o Iraque, Bush comandou uma intervenção contra o país, ao enviar tropas para o Kuwait, entre 1990 e 1991, e expulsar o Exército iraquiano que tinha invadido a região.

Novo foco

Bush mudou o foco americano no Oriente Médio, saindo da exclusiva preocupação com a proteção de Israel, em meio a países até então hostis, e ampliando a ação americana para a antiga Mesopotâmia, hoje Iraque, principalmente em função da grande quantidade de petróleo na região.

Isso possivelmente ajudou os Estados Unidos, sempre acusado de fazer prevalecer seus interesses econômicos por trás de intervenções militares, a ganharem cada vez mais know how e assim se tornarem o maior produtor mundial da commodity, após 2015.

Petróleo que foi um dos fatores que o levaram à presidência, após muitos anos atuando na política (como deputado e diretor da CIA, entre outros). Bush pai, um riquíssimo empresário ligado ao petróleo, ajudou a formular as políticas de Ronald Reagan (1981-1989), muito contestadas por organizações humanitárias. 

Neste período de incertezas, sem se saber para onde iria a influência da antiga União Soviética, Bush reforçou o objetivo de contrabalançar o poder esquerdista na vizinhança, se contrapondo a grupos como os sandinistas, na Nicarágua, financiado pelos Estados Unidos no famoso escândalo Irã-Contras.

Já como presidente, autorizou a invasão do Panamá para depor, em 1989, o ditador Manoel Noriega, extraditado para os EUA, em uma fase de influência direta americana em países da América Central.

Semelhança com Trump

O perfil de Donald Trump se assemelha ao de Bush ainda mais do que ao de George W. Bush, o filho, que assumiu o poder oito anos após o pai deixar a presidência. Ambos, Trump e Bush pai foram empresários bem-sucedidos. O fator econômico foi fundamental para eles chegarem ao poder.

Mas a intensidade da vida pública de Bush pai, antes dele se tornar presidente foi tão intensa que, depois de seu primeiro mandato, ele se desgastou e não teve fôlego para obter um segundo.

No vai-e-vem da política americana, foi a vez da ascensão do progressista Bill Clinton (1993-2001). Depois, o filho de Bush (2001-2009) deu prosseguimento ao legado conservador. E se Bush pai optou por não invadir o Iraque quando era presidente, deixou todo o caminho pavimentado para seu filho iniciar a invasão, na segunda Guerra do Golfo (2003).

Até a eleição de Barack Obama (2009-2017) com sua política de apaziguamento em muitos conflitos. E então, foi a vez de Trump (2017), e sua retórica que atribuía a Obama um dito enfraquecimento do país no cenário internacional.

Mas, como mostram todas as cerimônias que envolvem a morte de um presidente americano, como vem ocorrendo nestes dias com Bush, a liturgia do cargo é que se destaca. As homenagens surgem de todos os lados.

Os ex-presidentes, democratas e republicanos se reúnem, ao lado das esposas, e fazem das discordâncias políticas algo menor. É típico da democracia americana reverenciar um presidente morto. E ressaltar suas qualidades, transformando, do ponto de vista diplomático, até defeitos em feitos. 

Vídeo: Morre George Bush pai, último presidente americano da Guerra Fria