Joaquín 'El Chapo' Guzmán foi considerado culpado de todos os dez crimes pelos quais foi acusado

Joaquín ‘El Chapo’ Guzmán foi considerado culpado de todos os dez crimes pelos quais foi acusado
Reuters

O julgamento de Joaquín “El Chapo” Guzmán revelou detalhes chocantes da vida do megatraficante mexicano.

Nesta terça-feira (12), ele foi condenado por um júri em Nova York por todos os dez crimes pelos quais foi acusado, incluindo distribuição de cocaína e heroína, posse ilegal de arma de fogo e lavagem de dinheiro.

O chefe do Cartel de Sinaloa, de 61 anos, ainda espera a sentença — que pode culminar em uma prisão perpétua.

Leia, a seguir, 15 fatos perturbadores que chegaram ao conhecimento do júri no decorrer das 11 semanas de julgamento.

1. Sala da morte hi-tech

Um matador de aluguel que trabalhava para El Chapo mantinha uma “sala da morte” em uma mansão no México equipada com um ralo no meio do cômodo para facilitar a limpeza após os assassinatos.

Em depoimento dado em janeiro, Edgar Galvan afirmou que Antonio “Jaguar” Marrufo havia construído um quarto com azulejos brancos e isolado acusticamente “para que nenhum som sequer vazasse”.

“Ninguém saía daquela casa”, disse Galvan ao júri.

A testemunha afirmou que seu papel dentro da organização era contrabandear armas dos Estados Unidos para o México para que Marrufo pudesse usá-las para “apagar” os rivais do cartel na região de Ciudad Juárez, em que vivia.

Na época, Galvan morava na cidade de El Paso, no Estado americano do Texas.

Ambos estão presos por posse ilegal de armas.

2. Estuprar garotas menores ‘dava-lhe vida’

Documentos tornados públicos dois dias antes da data prevista para a deliberação do júri trouxeram à tona novas e perturbadoras acusações contra El Chapo feitas pelo traficante colombiano Alex Cifuentes, que se descreveu como “braço direito” do chefe do cartel de Sinaloa.

Cifuentes, que, segundo os promotores, passou dois anos escondido com Chapo nas montanhas do México, afirma que o megratraficante drogava e estuprava meninas de apenas 13 anos, conforme noticiado pelo New York Times.

Uma mulher conhecida como Comadre Maria enviava sistematicamente para El Chapo fotografias de garotas jovens para que ele e seus comparsas pudessem escolher suas vítimas.

Ainda de acordo com Cifuentes, essa mesma mulher seria intermediária do traficante para o pagamento de propina ao ex-presidente mexicano Enrique Peña Nieto — o que o político nega.

Pelo equivalente a US$ 5 mil (cerca de R$ 18 mil), Comadre Maria enviava as garotas ao esconderijo do cartel nas montanhas, onde elas seriam drogadas com “uma substância em pó” e estupradas.

Conforme os documentos, El Chapo chamava as meninas de “minhas vitaminas” e dizia que violentá-las “dava-lha vida”.

A defesa de El Chapo afirma que as acusações são falsas e alega que elas não deveriam ter sido levadas em conta durante o julgamento por serem “pouco confiáveis”.

O traficante tem duas filhas gêmeas com a esposa, Emma Coronel (foto)

O traficante tem duas filhas gêmeas com a esposa, Emma Coronel (foto)
Getty Images

3. Propina de US$ 100 milhões a um presidente

Uma alegação explosiva emergiu durante o depoimento de Cifuentes no tribunal.

O traficante colombiano afirmou que o ex-presidente mexicano Peña Nieto, que esteve à frente do governo entre 2012 e 2018, recebeu pagamento de US$ 100 milhões (aproximadamente R$ 372 milhões) de El Chapo.

Segundo a testemunha, Peña Nieto teria entrado em contato com o megatraficante logo depois de assumir, em 2012, para pedir o equivalente a US$ 250 milhões para que as autoridades mexicanas deixassem de procurá-lo.

El Chapo ofereceu então US$ 100 milhões ao político, que teria aceito a oferta.

Peña Nieto não comentou publicamente a acusação, mas, no fim do ano passado, negou que tivesse recebido qualquer tipo de propina do cartel de drogas.

4. Narco-amantes

Chapo usava a mulher e as amantes também para promover seus negócios — o que seria confirmado pelo histórico de troca de mensagens entre eles, de acordo com o FBI.

Graças ao software de monitoramento FlexiSpy, que o traficante usava para espionar a esposa, Emma Coronel, e as amantes, o Departamento Federal de Investigação dos EUA conseguiu usar as mensagens como provas no tribunal.

Guzmán e Coronel discutiam sobre a educação das filhas com frequência, como a maioria dos pais, mas as conversas vez ou outra deixavam escapar indícios das atividades ilegais dos parentes.

Em uma mensagem enviada no aniversário de seis meses das gêmeas do casal, conforme noticiou o New York Daily News, ele afirma: “Nossa filha é destemida, vou dar a ela um (fuzil) AK-47 pra que possa andar com o pai.”

Outra sequência de mensagens expôs como El Chapo escapou de um vilarejo durante uma batida feita por autoridades mexicanas e americanas.

“Tive que sair correndo às três da tarde”, ele escreveu à esposa. “Eu os vi batendo na porta da casa ao lado, mas consegui fugir.”

Ele então pede que ela traga roupas novas, sapatos e tinta preta para tingir o bigode.

Guzmán acompanhava de perto a atividade de 50 pessoas por meio de seus telefones e computadores, de acordo com Cristian Rodriguez, que prestava serviço de TI para o criminoso.

Rodriguez afirmou perante ao júri que El Chapo com frequência ligava o microfone no telefone das amantes logo após falar com elas para ver “o que elas falavam sobre ele”, ainda de acordo com o Daily News.

Uma das mulheres monitoradas era Agustina Cabanillas Acosta, que teria ajudado Chapo a fechar negócios na região em que vivia.

Entre um flerte e outro, eles discutiam sobre remessas de drogas e uma operação “contínua” de vendas.

Chapo teria pago por uma lipoaspiração feita por Acosta. Ela, por sua vez, estaria ciente dos hábitos de espionagem do amante.

“Eu sou mais esperta que ele”, ela teria dito a amigos.

Lucero Guadalupe Sanchez Lopez (esq.) depôs diante da esposa de Chapo (dir.)

Lucero Guadalupe Sanchez Lopez (esq.) depôs diante da esposa de Chapo (dir.)
Reuters

5. Inimigos enterrados vivos

Em um dos depoimentos mais macabros ouvidos durante o julgamento, Isaias Valdez Rios disse ter visto El Chapo espancar brutalmente pelo menos três homens antes de atirar para matá-los.

Em outro episódio, dois ex-integrantes do cartel de Sinaloa que teriam se unido à organização rival Los Zetas foram considerados traidores e capturados por capangas de Guzmán.

De acordo com o ex-guarda-costas do traficante, ele teria surrado os homens por três horas seguidas.

“Eles tinham virado um farrapo – praticamente todos os ossos do corpo estavam quebrados. Não conseguiam se mexer. E Joaquín continuava batendo neles com um pedaço de pau e uma arma”, afirmou Valdez Rios.

Os dois homens teriam sido, então, levados a uma área em que havia uma grande fogueira, onde foram executados por Chapo com tiros na cabeça.

O líder do cartel de Sinaloa ordenou que eles fossem jogados no fogo e recomendou que os corpos fossem consumidos pelas chamas até que não restasse nenhum osso, disse Valdez Rios.

A testemunha afirmou ainda que um terceiro homem assassinado pelo traficante se chamava Arellano Felix e era membro de um cartel rival.

“Ele tinha queimaduras feitas com ferro em brasa nas costas, a camiseta grudada nas costas. Tinha queimaduras feitas com isqueiro de automóvel pelo corpo inteiro. Os pés foram queimados”, contou o ex-guarda-costas no tribunal.

O homem teria sido então trancado em uma estrutura de madeira por dias e levado vendado a um cemitério, com as pés e as mãos amarrados.

El Chapo teria começado a interrogá-lo e, enquanto o homem respodia, atirado dele.

A testemunha relatou que a vítima ainda respirava quando foi jogada em uma cova e enterrada viva.

6. Fuga da prisão

Os segredos da fuga cinematográfica de El Chapo de uma prisão de segurança máxima no México em 2015 foram revelados por um ex-membro do cartel.

Em depoimento no tribunal, Damaso Lopez disse que a esposa do chefe e filhos do traficante estavam envolvidos desde o começo na força-tarefa para retirá-lo da penitenciária de Altiplano.

Ele mencionou reuniões secretas em 2014 em que Emma Coronel repassou instruções detalhadas dadas pelo marido aos encarregados de organizar a fuga.

“Um túnel tinha que ser construído e eles deveriam começar o trabalho imediatamente.”

El Chapo escapou da prisão de segurança máxima de Altiplano em uma pequena motocicleta adaptada para cruzar o túnel

El Chapo escapou da prisão de segurança máxima de Altiplano em uma pequena motocicleta adaptada para cruzar o túnel
Getty Images

Um dos filhos de El Chapo comprou um imóvel ao lado da prisão e, a partir daí, a escavação teve início.

Um relógio com GPS foi contrabandeado para dentro do centro de detenção para dar aos criminosos a coordenada exata de cela do chefe.

O túnel de 1,6 km levou meses para ser concluído — e El Chapo chegou a reclamar que a perfuração vinha fazendo muito barulho, afirmou Lopez.

Ele acrescentou que a estrutura de concreto logo abaixo da cela foi “difícil de romper”.

Apesar dos percalços, o megatraficante escapou em julho de 2015 em uma pequena motocicleta adaptada para cruzar o túnel.

7. Fuga sem roupa

Outra de suas amantes, Lucero Guadalupe Sanchez Lopez, contou ao tribunal como, em 2014, El Chapo escapou de fuzileiros navais mexicanos.

Quando as autoridades invadiram seu esconderijo na época, ele teria fugido correndo — completamente nu.

Eles usaram um túnel construído embaixo de uma banheira, atravessando um caminho cheio de lama por uma hora até chegar à superfície, segundo o New York Post.

Dias depois do episódio, o traficante seria finalmente capturado pelas autoridades – mais uma vez sem roupa, mas desta vez com a mulher, Emma Coronel.

Ela e o marido usavam jaquetas de cor vinho durante do depoimento de Lopez, segundo a repórter da BBC Tara McKelvey, que estava no tribunal.

8. Armamento cravejado de brilhantes

A fama de extravagância do megatraficante ficava evidente em sua coleção pessoal de armas.

Uma das que mais lhe eram caras era cravejada de diamantes e estampava um monograma com suas iniciais – JGL. Outra, um fuzil AK-47, era banhada a ouro.

Arma cravejada de diamantes que pertenceria a El Chapo

Arma cravejada de diamantes que pertenceria a El Chapo
Reuters

9. Indelicadeza fatal

Boa parte das provas usadas para incriminar o narcotraficante veio de uma das principais testemunhas apresentadas pelos promotores, Jesús Zambada.

Em seu depoimento, ele afirmou que El Chapo teria matado o filho do líder de outro cartel porque ele não teria apertado sua mão.

Rodolfo Fuentes teria se encontrado com Guzmán para negociar uma pacificação após um período de conflito entre os grupos, conforme a testemunha relatou ao júri.

“Quando ele saiu, Chapo estendeu-lhe a mão e disse: ‘A gente se vê, amigo’. Rodolfo deu as costas e foi embora”, declarou Zambada.

Fuentes e a esposa foram mortos a tiros em frente a um cinema pouco depois.

Ex-integrante do cartel de Sinaloa que também foi testemunha no julgamento, Miguel Angel Martinez disse ter perguntado uma vez a El Chapo porque ele matava.

“Ele me respondeu: ‘Ou a sua mãe vai chorar ou a mãe deles vai chorar’.”

10. Mentira que levou à morte

Um ex-líder de outro cartel de drogas relatou ao júri que o narcotraficante teria matado o próprio primo depois de ele ter mentido e dito que estava fora da cidade.

Juan Guzmán disse a Chapo que estava viajando — mas foi visto em um parque perto de casa.

“O fato de ele ter mentido deixou meu compadre com raiva”, afirmou Damaso Lopez Nunez.

Para fazer de Juan uma espécie de caso exemplar, El Chapo teria ordenado que ele fosse interrogado e assassinado. A secretária do rapaz, que estava com ele no momento, também foi morta.

Uma das amantes do traficante, Lucero Guadalupe Sanchez Lopez, disse no tribunal que lembrava estar com Chapo quando ele recebeu a notícia da morte do primo.

“Ele disse que, dali em diante, quem quer que o traísse iria morrer também.”

“Fosse parente ou mulher, iria morrer”, ela acrescentou.

11. ‘328 milhões de carreiras de cocaína’

Adam Fels, procurador-adjunto dos EUA, disse em sua declaração inicial que o traficante teria enviado “mais de uma carreira de cocaína para cada pessoa que vive nos Estados Unidos” em apenas quatro de suas remessas — 328 milhões.

Zambada afirmou que uma vez, em 1994, Guzmán ordenou que um barco carregado com 20 toneladas de cocaína fosse afundado para que não fosse interceptado pelas autoridades.

 El Chapo foi condenado após 11 semanas de julgamento

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AFP

12. Bazuca para treinar a mira

O júri também ouviu de Zambada que Guzmán chegou a usar uma bazuca para praticar tiro ao alvo — e relaxar enquanto estava de férias.

A testemunha afirmou que El Chapo levou o lança-foguetes em uma viagem com a família em 2005.

13. Um fundo para propinas com US$ 50 milhões

Uma das maiores revelações que vieram à tona com os depoimentos foi como o cartel de Sinaloa supostamente pagou autoridades mexicanas para garantir que os negócios não fossem interrompidos.

Zambada relatou que os traficantes tinham US$ 50 milhões (cerca de R$ 187 milhões) em um fundo destinado ao ex-secretário de Segurança Pública do México García Luna, para que oficiais corruptos fossem indicados para chefiar operações policias.

A testemunha afirmou ainda ter dado o dinheiro a Luna em malas cheias de dinheiro. O ex-secretário nega as acusações.

Quando o ex-prefeito da Cidade do México Gabriel Regino estavas prestes a ser nomeado para a mesma posição, ele também teria sido subornado pelo cartel, de acordo com Zambada.

Regino, que hoje é professor, também nega as acusações.

Chapo é o maior traficante até hoje julgado nos EUA

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Reuters

14. ‘Narco-santo’ no tribunal

Uma imagem de 15 centímetros de um herói folclórico retratado como uma espécie de “narco-santo” foi vista em uma prateleira na sala de reuniões usada pelos advogados do criminoso no tribunal, segundo o New York Post.

A estátua de Jesús Malverde sentado em um trono roxo cercado por sacolas de dinheiro apareceu na última quarta-feira, disse um dos advogados de El Chapo.

Malverde é visto como um tipo de Robin Hood, diz a lenda, que roubava dos ricos para dar aos pobres no início dos anos 1900.

15. Zoológico privado

Martinez disse em depoimento que o narcotraficante era rico a ponto de ter um zoológico privado, além de vários imóveis e bens de alto valor — incluindo uma casa de praia de US$ 10 milhões e um iate batizado de “Chapito”.

Construído no início dos anos 90, o zoológico abrigaria leões, tigres e crocodilos e seria equipado com um trem que conduzia os visitantes pelo passeio.

Dentro da propriedade havia ainda uma casa com piscina e quadra de tênis.