Jovem Guarda Begins

As biografias de figuras lendárias da música mundial sempre arrastaram um enorme público aos cinemas. E nem é preciso justificar o motivo para isso. Recentemente, no entanto, o subgênero tomou novo escopo – devido a sucessos estrangeiros avassaladores, de crítica e público, como Bohemian Rhapsody e Nasce uma Estrela (que embora não seja uma biografia propriamente dita, tem muito das origens de sua estrela Lady Gaga). Tais filmes elevaram o subgênero ao estrelato de vez, resta saber se seguirão nesta tendência megalômana de blockbuster. Se depender do que vimos até o momento de Rocketman (bio de Elton John), a resposta é sim.

No Brasil o mesmo acontece, com grandes artistas da música ganhando seu devido reconhecimento em tela, e sendo marcados em outro espectro da arte para a eternidade. Depois de Cazuza, Elis, Gonzaga e Tim Maia, quem ganha os holofotes mais que merecidos são Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Wanderléa e a Jovem Guarda na biografia Minha Fama de Mau. Pelo título dá para perceber que a trama é focada e gira em torno do Tremendão, que ganha o protagonismo e conduz a narrativa. O longa começou a ser filmado em 2015, e é uma bela homenagem do diretor Lui Farias à época e ao protagonista Erasmo, envolvido diretamente com a produção.

O longa não poderia ter valor mais íntimo, já que Lui é filho do lendário Roberto Farias, diretor da trilogia de filmes protagonizada por Roberto Carlos e os ícones da Jovem Guarda: Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa (1968), Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968) e Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora (1971). Lui cresceu com tais figuras em sua casa, então propriedade maior nenhum outro cineasta teria na hora de retratá-los. Minha Fama de Mau se resume numa grande carta de amor, numa bela homenagem em forma de filme – embora não esqueça (assim como todas as biografias ficcionais) suas zonas romanceadas. Segundo o diretor, o próprio Erasmo perguntou após ter assistido ao filme, por que o haviam retratado tão bonzinho.

No filme, o Tremendão ganha as formas de Chay Suede, jovem celebridade para geração milênio – cuja monstruosa fama atual o faz compreender um pouco o que foi o fenômeno de seu personagem para a década de 1960. Veio do esforçado protagonista também a ideia dos próprios intérpretes cantarem as músicas apresentadas na obra – ao contrário de uma dublagem com as vozes originais. O artifício cria uma veracidade maior, além de demonstrar o grande alcance performático do trio protagonista – muito bem escalado, diga-se -, Suede, Gabriel Leone (que vive Roberto Carlos) e Malu Rodrigues (Wanderléa).

A trama, escrita pelo próprio Lui, em parceria com L.G.Bayão (Ponte Aérea e O Doutrinador) e Letícia Mey, narra a juventude de Erasmo pelas ruas da Tijuca, Rio de Janeiro, ao lado de figuras como Tim Maia (Vinicius Alexandre) – com quem aprendeu os primeiros acordes. Mas foi quando conheceu Roberto Carlos que ocorreu o divisor de águas. Os dois, ao lado de Wanderléa (apelidada de Ternurinha), foram os precursores e os maiores pilares do movimento conhecido como Jovem Guarda – um estilo de música que pegava carona no rock estrangeiro, em especial Beatles, Elvis e afins (muitas das letras eram inclusive traduções). O fato fazia com que esta onda que mexia com o imaginário de multidões de jovens, fosse mal vista por outros artistas da música nacional, como os partidários da MPB (música popular brasileira), vide Elis Regina.

No terreno das atuações, Chay Suede e Malu Rodrigues – ambos oriundos da música de certa forma – entregam desempenhos esforçados e sobressaem no terreno musical. Por outro lado, as performances que mais chamam atenção no longa são as de Gabriel Leone, vivendo um Roberto Carlos multifacetado, cheio de nuances, camadas e tons de cinza (algo que o Rei evitaria), e o “não-ator” Vinicius Alexandre, que impressiona abraçando toda a magnitude expansiva de Tião, antes de se tornar o icônico Tim Maia.

Para fugir da mesmice de uma biografia musical, Lui Farias ousa em sua narrativa. Assim, temos a dinâmica de uma história em quadrinhos em algumas cenas, com a imagem virando quase uma folha de gibi, com balõezinhos de diálogo, ou a quebra da quarta parede pelo protagonista diversas vezes. Na primeira metade, a obra transborda com criatividade narrativa, criando um design arrojado e moderno para uma história passada na década de 1960, o que somado a protagonistas jovens do momento, apenas cria mais conexão com a juventude atual. No segundo trecho é onde o cineasta imprime um teor mais dramático e mais peso, fincando o musical na realidade.

Minha Fama de Mau surge como ode bem humorada, divertida e muito pra cima de um período inesquecível na história do entretenimento nacional. Assim como Bohemian Rhapsody, sua proposta não é dissecar a psique dos protagonistas num mergulho espiral dramatúrgico, mas perpassar fatos marcantes, criando uma compilaçã e, acima de tudo, deixar a música falar mais alto. E quando ela começa, podemos ir quente que eles estão fervendo.