Em geral, filmes sobre guerra tendem a mostrar a tensão entre os países e os desdobramentos do conflito para a população como um todo. Por isso, ao ler apenas o título Guerra Fria, é provável que os desavisados esperem assistir a uma história com esse teor; no entanto, já fica o aviso: isso é tudo o que o novo filme de Pawel Pawlikowski não é. Apesar de trazer o embate entre a Polônia Stalinista e a Paris dos anos 50 como pano de fundo, o longa foge do geral para focar no intimista: o amor impossível entre a jovem cantora Zula (Joanna Kulig) e o músico Wiktor (Tomasz Kot). E faz isso com maestria, contando com a música como terceira protagonista para mostrar os encontros e desencontros do casal durante 15 anos.

O apuro estético também faz toda a diferença aqui. Para focar nos personagens e retratar toda a sua melancolia, o diretor escolheu filmar em preto e branco e trocar o widescreen pela tela quadrada, em 4:3. A escolha pode incomodar os mais acostumados com o estilo do cinema atual, mas não é arbitrária e ajuda a criar todo o clima do longa. Pawlikowski já mostrou gostar da ausência de cores com Ida (vencedor na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar de 2015), e repete o feito muito bem neste novo filme, brincando com luz e sombra para ilustrar devidamente cada cena.

Não é exagero dizer que Cold War, no título original, beira a perfeição visualmente, com enquadramentos que variam entre personagens bem centralizados em tela e o que deixa a parte superior com mais destaque que os atores para mostrar melhor a paisagem ou outros elementos que estão em segundo plano. E que paisagem, diga-se de passagem, já que grande parte da trama se passa no clima boêmio de Paris.

Vencedor na categoria de melhor direção no Festival de Cannes e já escolhido como o representante polonês no Oscar deste ano – com grandes chances de sair como o vencedor da categoria de cinema estrangeiro –, Guerra Fria vai além da estética. Outro destaque é para o modo como a história de amor dos protagonistas quase faz jus ao título do filme – já que, apesar de intensa, não conta com o exagero do amor romântico e nem vem acompanhada de grandes gestos. O mais forte aqui é o não-dito, a troca de olhares  (muito bem executada pelos dois atores, mas principalmente por Kulig, um furacão em cena) e o modo como só parecem se encaixar no mundo quando finalmente estão juntos. Embora tenham personalidades tão diferentes – o espírito livre de Joanna versus o jeito introspectivo de Wiktor –, ambos se completam como ninguém, e por isso os outros tantos relacionamentos que viveram com outras pessoas não foram suficientes para sequer esfriar o que sentem um pelo outro.

Ao longo das idas e vindas, não fica claro o que de fato acontece em cada fase para que o casal se separe novamente. Uma tela indicando que os anos se passaram aparece e, por repetidas vezes, vemos os dois se encontrando após um longo tempo distantes, mas sem que o sentimento tenha mudado. Os traços se alteram e o clima melancólico fica cada vez maior; mas, em cada encontro, eles continuam como o mesmo casal que se conheceu na escola de música – quando Joanna era apenas uma jovem misteriosa e desajustada e Wiktor um charmoso professor.

Apesar de ser bem intimista e não ter grandes reviravoltas, Guerra Fria não fica monótono por ter um ritmo ágil nas passagens de ano e contar com o reforço da música do início ao fim. Tirando as canções que foram feitas para exaltar Stalin, todas parecem contar a história do casal e as dificuldades que vêm junto com um sentimento forte como a paixão. As letras são tocantes por si só, mas se tornam ainda mais emocionantes com a performance inspirada de Kulig – que é, definitivamente, a melhor do filme. É incrível como ela consegue transmitir todos os sentimentos com o olhar, e como transita muito bem entre a tristeza e a euforia da personagem…

No final, quando os créditos sobem e os dois atores saem de cena, a “guerra fria” entre o casal termina poética e carregada da melancolia que permeia todo o longa. E o que fica é a reflexão de um amor puro e genuíno, que sem ser piegas ou apelar para o exagero em cena, resolve ultrapassar sua maior barreira.