Crianças têm aulas de reforço e ainda fazem brincadeiras

Crianças têm aulas de reforço e ainda fazem brincadeiras
Edu Garcia/ R7

Agradecer é a palavra preferida da língua portuguesa de Zobaida Khamis, 13, mas ela não sabe explicar o motivo. Tímida, ela veio para o Brasil junto com sua mãe Nour Khamis, seu pai e três irmãos, fugindo da guerra da Síria.

Chegando ao Brasil, Nour teve outra filha, que recebeu um nome tipicamente brasileiro: Maria.

A jovem Zobaida aprendeu sua palavra preferida na escola pública que frequenta na Zona Leste de São Paulo. Além das aulas com alunos brasileiros da mesma faixa etária, a menina síria recebe atenção especial no projeto Cidadãos do Mundo, da ONG IKMR.

O trabalho da ONG é facilitar o contato e intermediar a relação entre refugiados e solicitantes de refúgio que estão no Brasil e as escolas, que têm o dever de aceitar essas crianças, segundo a lei brasileira.

Pelo menos 150 crianças de 6 a 12 anos são auxiliadas pelo projeto que também oferece aulas de reforço e acompanhamento individual para os alunos.

Criança na escola ajuda toda a família refugiada

Rebeca Capitane, a coordenadora pedagógica do projeto, explica que muitas vezes essas famílias chegam no Brasil sem falar português, então a presença da criança na escola, aprendendo o novo idioma, ajuda toda a família.

“As crianças aprendem a língua muito rápido, mas é por uma questão de necessidade”, conta.

“Muitas vezes, elas [as famílias] precisam ir à Polícia Federal resolver algum problema e as crianças são os interlocutores. Isso é um pouco ruim por que às vezes você tem que falar para a criança coisas que você não falaria para uma pessoa de 18 anos. Não se pode falar com metáforas porque ela não vai traduzir a metáfora”, explica Capitane.

Yasmin, a irmã de Zobaida também está matriculada e tem aulas. Como palavra preferida ela escolheu Stephanie, o nome de sua amiga da escola.

As duas irmãs são atendidas pelo projeto em uma mesquita na região do Brás, junto com outras 10 crianças do Egito e da Pérsia. Elas têm aulas de reforço todas as quartas-feiras.

Outros alunos de outras religiões, sem disponibilidade ou que necessitem de mais atenção são acompanhados de pedagogas e professores de diferentes áreas.

“A gente entende que cada pessoa aprende de um jeito diferente, por isso cada aluno tem uma atenção diferente, especial”, explica Capitane.

Além disso, os pais também são incentivados a aprender o novo idioma nas aulas coletivas.

A vida na Síria

Nour é enfática quando diz que não quer voltar à Síria. “A vida aqui é boa. Por que eu iria voltar?”

Na semana passada, o ministro de Relações Exteriores da Síria, Walid Al Muallem anunciou que os refugiados sírios já podem voltar ao país, pois a guerra acabou.

A refugiada que vive no Brasil não pensa desse modo e se recorda que sua casa foi destruída e sua família se separou e foi para outros lugares do mundo.

Apesar de terem saído de lá pequenas, suas filhas também têm lembranças da terra natal.

Yasmim se recorda, por exemplo, que no intervalo entre as aulas ela não podia sair para brincar no pátio da escola. Comia o lanche que a mãe preparava dentro da sala de aula.

Memórias como essa parecem ser compartilhada por toda uma geração. A jovem Myriam Rawick escreveu sobre isso em seu Diário, que já foi publicado no Brasil. O livro tem trechos diversos sobre a saudade que a menina tem da escola.

A pequena Yasmim não reclama do tempo livre e aproveita para se divertir com seus amigos. “Eu gosto de pular corda”, conta.

Seu lanche preferido para acompanhar a brincadeira é o pão de queijo, que não existia na Síria. A menina confessa que também adora manga, outra delícia tipicamente brasileira.

Escola não é preparada

Boa parte das crianças atendidas pelo projeto são absorvidas pelo sistema de ensino público, em escolas municipais e estaduais.

Capitane recorda que muitas dessas instituições não estão preparadas para receber alunos de outros países. “No geral, a nossa educação brasileira não é muito preparada para receber pessoas estrangeiras.”

Para isso, muitas vezes, a IKMR faz um treinamento para os professores explicando como a sensação de fugir de uma situação de conflito pode impactar no aprendizado da criança.

“Quando a criança chega no Brasil, ela tem o momento de silêncio dela. Ela tá reflexiva, ela não veio aqui passear. Aqui eles estão fugindo, é muito diferente”, enfatiza a pedagoga.

Além das deficiências institucionais, outra questão importante é como os outros alunos vão receber essa criança.

A educadora conta que existem dois tipos de recepção. A primeira é quando o aluno é rejeitado pela turma e sofre bullying. aspa véu.

Mas também existem as crianças que abraçam a nova cultura e recebem muito bem o novo colega.

Existem ainda algumas iniciativas de escolas particulares que apoiam o intercâmbio cultural e ajudam as crianças refugiadas a aprender português com jogos e brincadeiras.