Nacionalismo mostra nova roupagem

Nacionalismo mostra nova roupagem
Christian Hartmann/Reuters – 7.11.2018

Em 11 de novembro de 1918, com o armistício entre o derrotado Império Alemão e os vitoriosos Aliados, o mundo pôde celebrar o fim de sua primeira Grande Guerra, mas via se consolidar também uma ideologia que permearia inúmeros conflitos no século 20 e chegaria ao novo milênio revigorada e em outra roupagem: o nacionalismo.

Um século se passou desde o fim da Primeira Guerra Mundial, mas o sentimento da “nação em primeiro lugar” ressurge novamente com força em todo o planeta, fazendo líderes internacionais voltarem aos conflitos ocorridos entre 1914 e 1918 para alertar sobre um suposto perigo iminente.

No último domingo (4), durante a festa que celebra a campanha da Itália na Primeira Guerra, o presidente Sergio Mattarella afirmou que é preciso “reiterar com força a amizade e a colaboração” e criticou as “bajulações de um nacionalismo agressivo”. “O amor à Pátria não coincide com o extremismo nacionalista”, disse.

Dois dias depois, o presidente da França, Emmanuel Macron, reforçou que “demônios” do passado podem “ressurgir”. “A paz da Europa é precária e foi construída sobre esses dramas, sobre a Primeira Guerra Mundial, que causou 10 milhões de mortes. Defender fechamento de fronteiras, a recusa do próximo. A Europa está cada vez mais fraturada”, alertou.

Para o historiador Sidney Leite, pró-reitor do Centro Universitário Belas Artes, de São Paulo (SP), o nacionalismo era muito mais forte entre o fim do século 19 e o início do 20, apesar de seu recente ressurgimento.

“Os matizes nacionalistas eram muito mais fortes, e não havia até então os excessos que os nacionalistas mostrariam na Primeira e na Segunda Guerras. O nacionalismo está agora dentro de um conjunto de forças que se mostra muito mais como uma concepção de posicionamento político, mas sem a mesma hegemonia das três primeiras décadas do século passado”, diz.

O nacionalismo do pré-guerra estava, explica Leite, muito ligado a uma concepção de poder e território. Um dos efeitos colaterais dessa característica é o expansionismo, algo que não se vê no nacionalismo de hoje, que possui um caráter mais protecionista, de fechamento ao que vem de fora.

“Não vejo o expansionismo como uma ideia central do nacionalismo contemporâneo. O caso norte-americano, por exemplo, é muito mais de fechar fronteiras, evitar a chegada do outro. O perigo de enfraquecer a cultura local está muito presente também no nacionalismo francês”, acrescenta o historiador.

O aspecto expansionista é um dos catalizadores da Grande Guerra, especialmente na Alemanha, que buscava protagonismo político e a expansão de suas fronteiras para conquistar territórios e mercados em um cenário de pujança econômica.

“A Primeira Guerra Mundial é como um palco onde aos poucos o cenário vai se construindo, pela competição econômica entre Estados nacionais, pela disputa se valendo de armas e por um sistema internacional de alianças que me coloca sempre em um campo contrário a outro”, diz Leite.

Globalização fracassada 

Para o historiador, os novos nacionalismos nascem do fracasso de vários aspectos do projeto de globalização. “Quando entramos no século 21, a perspectiva era de uma vitória inexorável da globalização. Isso não aconteceu”, explica.

Ao longo dos anos, a sociedade e os Estados começaram a perceber que estavam perdendo empregos e qualidade de vida, o que dá combustível para uma onda nacionalista que ganha força em momentos de incertezas e crises.

“Penso que precisamos estudar, como se tivéssemos um termômetro, até que ponto essa tendência pode se tornar maioria. Ou possui um teto?”, questiona o historiador.