Candidatos novatos à Câmara dos Deputados recebem maiores doações

Dados estão declarados no Tribunal Superior Eleitoral e foram computados até este sábado.

Gabriel Kanner, de 28 anos, é sobrinho do empresário Flávio Rocha (PRB), da Riachuelo, e recebeu a doação de R$ 2 milhões do avô, Nevaldo Rocha.

SELO-ELEIÇÕES-2018-100Quatro dos seis candidatos a deputado federal que mais receberam doações de pessoas físicas até agora nas eleições deste ano
estão em busca do primeiro cargo eletivo. As exceções na lista são o
presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM), que tenta a
reeleição, e Jean Carlo (PSDB). Somados, eles arrecadaram
aproximadamente R$ 6,82 milhões.

Os quatro novatos da lista – Gabriel Rocha Kanner (PRB),
Ricardo Salles (Novo), Tabata Amaral de Pontes (PDT) e Vinicius
Poit (Novo)– ficaram com 72% desse total. Os dados estão declarados
no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e foram computados até este sábado (15). 

O cientista político Humberto Dantas, pesquisador da FGV, vê
as doações para os outsiders como um sinal de que há uma busca por
renovação no Congresso, apesar da perspectiva de a Câmara ter um dos
maiores índices de reeleição. “Tem muita gente querendo ver coisa nova
na política. Algumas pessoas estão dispostas a bancar isso. Quanto mais
gente tiver disposta a pagar, maior a possibilidade efetiva de renovar,
porque dinheiro faz diferença efetiva nas campanhas”, disse o cientista
político.

Levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria
Parlamentar (Diap), divulgado em agosto, aponta que, dos 513 deputados
federais, 407 são candidatos à reeleição, índice maior do que no pleito
de 2014, quando 387 tentaram renovar seus mandatos. 

Pela
primeira vez na corrida eleitoral, Gabriel Kanner foi o que mais recebeu
até agora – R$ 2 milhões. Quando se compara as doações de pessoas
físicas para os candidatos a todos os cargos, o valor só não é maior do
que o do senador Antonio Anastasia (PSDB), que concorre ao governo de
Minas Gerais e computou R$ 2,8 milhões.

Aos 28 anos, Kanner é sobrinho do empresário Flávio Rocha (PRB),
da Riachuelo, que chegou a anunciar sua pré-candidatura à Presidência da
República, mas desistiu antes do registro oficial. A doação foi feita
pelo avô do candidato, Nevaldo Rocha, fundador da Riachuelo e pai de
Flávio.

“Deixei a carreira de executivo para me dedicar à política e
decidi não fazer uso de recursos públicos na campanha. Os valores doados
por meu avô estão dentro dos limites legais. Sou um defensor da livre
iniciativa. Nunca fui candidato, mas participo de projetos sociais há
mais de dez anos”, diz Kanner.

Ele se define como
representante do setor produtivo e do varejo e defende uma plataforma
voltada ao setor. “Pretendo trabalhar pela redução da carga tributária e
simplificação da cobrança dos tributos, com o combate à burocracia. O
Brasil precisa de uma reforma tributária e política”, completa.

Crescida na Vila Missionária, bairro da periferia de São Paulo, e
graduada em Ciências Políticas e Astrofísica na Universidade Harvard
(EUA), Tabata Amaral, de 24 anos, recebeu para sua campanha R$
889.930,00 de 49 doadores. 

“A grande maioria das doações é espontânea,
de pessoas que conhecem meu trabalho e se identificam com as minhas
ideias”, afirma ela, que escolheu a educação como bandeira política.
“Acredito que muitos doadores veem em mim a possibilidade de realizar as
mudanças desejadas na sociedade e na política, por ser mulher, jovem,
moradora da periferia”, afirma a candidata.

Em busca de seu primeiro mandato, Ricardo Salles viu sua campanha
ser o destino da doação de 56 pessoas, somando R$ 1,208 milhão até
agora. Ele afirma que sua rede de arrecadação foi construída ao longo de
sua trajetória de militância que teve como uma das principais marcas o
movimento Endireita Brasil, que prega valores liberais, conservadores e
anti-PT. “Tenho uma identidade ideológica com essas pessoas há muito
tempo”, afirmou Salles sobre seus doadores. 

Em quinto lugar, vem o novato Vinicius Poit (Novo), que
recebeu R$ 819.500,00 de 47 doadores. Assim como Tabata, Poit fez parte
do movimento RenovaBR, projeto empresarial criado para capacitar futuros
candidatos ao Legislativo e idealizado pelo empresário Eduardo Mufarej,
um dos doadores. 

Poit, fundador de uma startup que realiza recrutamento de
profissionais pela internet, define-se como um empreendedor e tem
atuação nas redes sociais – possui 270 mil seguidores em uma página na
qual fala de política e mobilização social. Ele relata que faz campanha
há pelo menos dois anos e já rodou mais de 170 cidades em São Paulo. 

 Para Poit, as pessoas estão procurando doar para candidatos que possam
representar uma renovação na política brasileira. “As pessoas que estão
fazendo doações para mim, acho que nunca doaram na política. Me viram
como empreendedor e como opção nova de verdade, porque nunca fui filiado
a partido nenhum”, disse. 

Poit diz que no Congresso Nacional irá atuar para cortar gastos e
privilégios, promete medidas como publicação mensal de gastos, processo
seletivo para contratar funcionários do gabinete. “Não vou defender uma
classe só. O empreendedorismo atravessa todas as classes e todos os
setores. Acredito muito em inovação, tecnologia e serviços”, afirmou. 

Equilíbrio na disputa

O empresário
Eduardo Mufarej, um dos idealizadores do RenovaBR, considera que a
doação de pessoa física ajuda a atenuar a diferença entre os candidatos
que dispõem de recursos públicos do Fundo Eleitoral, principalmente
deputados que buscam renovar seus mandatos, e os que estão tentando
conseguir a vaga pela primeira vez. 

“As pessoas que podem promover uma renovação política qualificada
estão recebendo doações de quem entende que, se a sociedade não
participar, a chance de elas se elegerem é próxima de zero e aí o Brasil
vai continuar patinando nessa questão da distância entre representantes
e representados”, avalia o empresário.

Ele lembra que parte do fundo, criado pela reforma eleitoral do
ano passado e que tem R$ 1,7 bilhão de recurso público, está sendo
destinada a candidatos que tentam a reeleição. A maioria dos partidos
decidiu privilegiar candidaturas a deputados federais na distribuição da
verba que recebeu do fundo para tentar manter ou até ampliar a bancada
na Câmara.

“Temos financiamento público na história pela primeira vez, mas
não teve discussão sobre para onde esse dinheiro deveria ir”, diz
Mufarej. “Em vários Estados, enquanto um partido coloca R$ 1 milhão na
reeleição de um candidato a deputado federal, outro que não tem mandato
não recebe nada. Essa é a notícia que me deixa desesperado. Todo cidadão
brasileiro está botando R$ 10,00 na conta do fundo eleitoral, e quem
decide? Qual é o critério?”, questiona.

Para o cientista político Humberto Dantas, pesquisador da FGV, a
reforma política que criou o Fundo Eleitoral, no ano passado, foi feita
para beneficiar candidatos à reeleição. “Os partidos têm de aprender que
precisam que a sociedade reverta recursos e considere razoável
financiá-los. Eles precisam se conectar com eleitores e conectar também
representa angariar dinheiro e descolar recursos.”