A cama pertencia ao rei inglês Henrique VII (Foto: Divulgação/The Langley Collection)

Comprar e vender móveis antigos é uma atividade rotineira na vida do inglês Ian Coulson. Acostumado a repaginar artigos centenários, não desconfiou quando arrematou uma cama  vitoriana por 2200 libras em 2010. “Nessa fase, eu pensei que fosse um exemplo supremo do movimento Artes e Ofícios [estética artística do século 19]”, disse ele em entrevista à National Geographic. Mas, quando examinou com mais calma, percebeu que o móvel era mais antigo do que imaginava.

Alguns sinais e marcas na madeira indicavam que a cama não havia sido esculpida com serras mecanizadas do século 19: os detalhes entalhados pareciam ser esculpidos com ferramentas manuais medievais e, apesar de o móvel ter sido usado em um hotel e depois abandonado num estacionamento na cidade de Chester, na Inglaterra, seu estado de conservação estava bem abaixo do esperado para um artigo de 150 anos.

Detalhes da cama que pertencia a Henrique VII (Foto: Divulgação/The Langley Collection)

 

Com a pulga atrás da orelha, Coulson resolveu investigar e se reunir com um grupo de especialistas para descobrir a verdadeira idade da cama. Depois de nove anos, chegaram à conclusão de que o móvel havia sido encomendado em 1486 para o casamento do rei inglês Henrique VII com Elizabeth de York. A união foi a responsável por colocar fim à Guerra das Rosas, um conflito civil que durou quase três décadas.

Talhados na madeira, os brasões reais e as rosas que simbolizavam as famílias dos noivos levam a crer que a cama realmente foi construída há mais de 500 anos. “Você tem os brasões reais, a cruz de São Jorge, as rosas das casas de Lancashire e York, símbolos de fertilidade, como a bolota [fruto do carvalho]. Quem quer que tenha esculpido isso, tinha uma compreensão profunda da iconografia da época. É difícil imaginar alguém vindo depois, esculpindo essa cabeceira e simplesmente acertando tudo”, disse o historiador Jonathan Foyle.

Henrique VII (Foto: Wikimedia Commons)

 

Se for verdade, trata-se de uma raridade: segundo os especialistas, não há registros de nenhum móvel da época de Henrique VII que tenha sobrevivido à Guerra Civil Inglesa, no século 17.

Alguns fatores, porém, ainda impedem que alguns pesquisadores tenham certeza sobre a origem do móvel. Isso porque o verniz utilizado na peça não permitiu que os testes de datação por carbono fossem feitos. A dedução por meio dos padrões de anéis da madeira também foi inconclusiva. Apesar disso, Coulson segue acreditando na sua hipótese: “Se esta não é a cama real, o que mais pode ser? Até agora ninguém inventou possibilidades convincentes”.

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