O clichê de que programadores ou quem lida com tecnologia são nerds e anti-sociais está ultrapassado. No livro Brotopia (Editora Random House, lançado no início de fevereiro nos Estados Unidos e ainda sem tradução para o português), a jornalista Emily Chang mostra como essa ideia antiga ajudou a transformar o Vale do Silício em um “clube de manos”, onde o machismo e a exclusão das mulheres se tornaram regra.

Ao longo de dois anos, a autora entrevistou centenas pessoas para revelar como uma indústria que supostamente surgiu para romper com a ordem social que a excluía acabou reproduzindo os mesmos erros. E, pior, seus executivos parecem se aproveitar da riqueza e poder recém adquiridos para conseguir status e sexo.

“No Vale do Silício, as mulheres são cidadãs de segunda classe e a maioria dos homens parece cega a isso”, escreve a autora. “A tragédia é que não precisava ter sido assim. A exclusão das mulheres dessa indústria não era inevitável. De muitas maneiras, ela sabotou a si própria e se privou do talento de mulheres brilhantes.” Conforme explica Chang, as mulheres desempenharam papéis cruciais nos primórdios da indústria. Entre os exemplos estão a matemática Ada Lovelace, que escreveu o primeiro programa de computador em 1842, e Grace Hopper, conhecida por criar a linguagem de programação COBOL. Em 1984, 40% dos diplomas de ciências da computação pertenciam às mulheres — hoje o número não passa de 22%.

Os dados sobre mulheres em empregos de tecnologia também não são animadores. Nos Estados Unidos, elas ocupam somente um quarto das vagas. Em grandes empresas como Google e Facebook os números são ainda piores. Em 2017, somente 31% das vagas em geral pertenciam às mulheres, e somente 20% das funções técnicas essenciais eram desempenhadas por elas. No Facebook, as mulheres correspondem a 35% da equipe e 19% das funções essenciais.

Diante disso, a autora questiona: o que deu errado? A justificativa mais comum em geral envolve a palavra “meritocracia”, a ideia de que os homens simplesmente têm talentos especiais que as mulheres não têm. Há também quem culpe a sociedade, as escolas ou as próprias mulheres, afirmando que elas é que não gostam de nerds. Mas o buraco é muito mais profundo, mostra Chang no livro. Da escolha de uma modelo sueca que estampou a Playboy como padrão para desenvolvimento de imagens digitais até o assédio sofrido por mulheres nas redes sociais, a indústria parece ter entrado num ciclo vicioso de exclusão que não dá sinais de melhora.

'Brotopia': como o Vale do Silício tornou-se um clubinho machista

 

Um dos pontos de virada cruciais foi um programa criado na década de 1960 para testar a aptidão de profissionais para a programação, área até então pouco conhecida. Dois psicólogos, William Cannon e Dallis Perry, perfilaram 1378 programadores, dos quais somente 186 eram mulheres, e usaram suas descobertas para criar uma escala vocacional. Eles acreditavam que ela poderia prever a satisfação da pessoa no trabalho e, portanto, sucesso na área. Baseado nisso, concluíram que as pessoas que gostavam de resolver quebra-cabeças seriam boas programadoras. Até aí, tudo bem.

O problema veio da segunda presunção: a de que bons programadores não gostam de pessoas e, especificamente “não gostam de atividades que envolvam interação pessoal”. Isso, de certa forma, favoreceu os homens. Culturalmente, tendemos a pensar que homens antissociais ou isolados são gênios enrustidos (pense em Beethoven, van Gogh, Einstein, etc.). Já as mulheres que “não gostam de interação pessoal” são rejeitadas e mal vistas.

O ambiente que privilegia os homens logo se tornou hostil às mulheres. No Vale do Silício, os escândalos de assédio sexual são tão sérios quanto os de outras áreas, como a do cinema, que ganharam atenção nos últimos meses. Um exemplo emblemático ocorreu na Uber. A acusação de assédio sexual feita por uma engenheira deu origem à uma investigação que revelou 47 outros casos e a demissão de 20 funcionários. Mas só agora as mulheres parecem ter ganhado força para falar. Durante anos, o que reinou foi a tradição de manter o silêncio, por medo de retaliações.

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O resultado disso foi o fortalecimento de um “clube de manos”, onde até reuniões de negócios são feitas em jacuzzis ou orgias regadas a drogas. No livro, Chang menciona o investidor de risco Chris Sacca, que se gaba ao falar de festas na jacuzzi de sua casa no Lago de Tahoe, na Califórnia. Elas se tornaram uma espécie de teste para ele determinar o quanto os empreendedores poderiam aguentar. “O que ele não pareceu perceber, talvez por sofrer do mesmo ponto cego de tantos outros homens na indústria, é que a demografia de pessoas que se sentem confortáveis dividindo uma jacuzzi com um investidor em potencial é bastante limitada”, nota a autora. 

Outra pessoa entrevistada por Chang, a CEO da startup de personal styling online Stitch Fix, Katrina Lake, observa: “Ele está me discriminando? Não. Mas ao mesmo tempo, sinto que não tenho todas as opções disponíveis pela forma como os negócios são feitos no Vale do Silício. Quantas mulheres estão dispostas a colocar um biquíni e tomar cerveja enquanto tentam explicar um negócio?”.

A ausência de mulheres trabalhando com tecnologia tem efeitos reais no nosso dia a dia. Entrevistada por Chang, Marissa Meyer, ex-CEO do Yahoo, explica que os melhores produtos e ferramentas em geral surgem de diferentes perspectivas —  e homens e mulheres definitivamente têm diferentes perspectivas.

Além disso, observa a autora, se robôs e códigos um dia vão dominar o mundo, ou no mínimo ter um papel crucial em nosso futuro, os homens não deveriam ser os únicos a programá-los. “A escassez de mulheres em uma indústria que está moldando nossa cultura não pode continuar existindo”, conclui.

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