Bolsonaro prevê mais verba para ciência; Haddad propõe recriar ministério

Proposta do candidato do PSL prevê medidas para alavancar setor; petista fala em elevar os investimentos a 2% do PIB até 2030.

Tanto Bolsonaro quanto Haddad pretendem elevar aumentar o investimento em ciência e tecnologia para 2% do PIB, mas em prazos diferentes.

SELO-ELEIÇÕES-2018-100Uma nova proposta de incentivo à ciência, tecnologia e inovação feita
por assessores de Jair Bolsonaro (PSL) prevê medidas para alavancar
investimentos privados e “aumento real do orçamento” federal para o
setor. O plano sugere ainda uma guinada no direcionamento dos recursos
públicos, orientando desembolsos para pesquisas aplicadas em projetos
considerados prioritários.

A
meta geral é elevar o investimento feito por governo e iniciativa
privada de 1,3% para 2,5% do PIB (produto interno bruto) em quatro anos.
O documento que resume a proposta de Bolsonaro para o setor, ao qual o Estado teve
acesso, afirma que é necessário dar “prioridade orçamentária” à área em
todos os níveis do governo, até mesmo, se necessário, “com prejuízo dos
demais campos do poder”, à exceção da educação, saúde e saneamento
básico.

“O Brasil precisa colocar ciência, tecnologia e inovação no
centro da sua estratégia nacional de desenvolvimento, como fazem outros
países”, diz o economista Marcos Cintra, presidente da Financiadora de
Inovação e Pesquisa (Finep), agência de fomento vinculada ao Ministério
da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). “Aqui ele é um
setor como outro qualquer. Quando precisa cortar, passa a régua e corta
tudo igual. Isso não pode acontecer. Passamos por ajuste fiscal, mas
tem de priorizar.”

Cintra é um dos
principais colaboradores do economista Paulo Guedes, que coordena boa
parte do plano de governo de Bolsonaro. O documento com as propostas
para o setor congrega os debates conduzidos por Cintra e pela equipe
supervisionada em Brasília pelo general Aléssio Ribeiro Souto. 

O texto surge como um complemento ao plano de governo protocolado
pela campanha de Bolsonaro na Justiça Eleitoral, que fala muito pouco
sobre ciência e tecnologia.

O novo plano traz uma série de propostas para alavancar o setor,
mas não detalha como a previsão de aumento dos dispêndios ficará em
linha com o compromisso que Guedes estabeleceu no programa de Bolsonaro
de zerar o rombo nas contas públicas já em 2019.

O texto destaca a necessidade de reverter o contingenciamento de
fundos setoriais vinculados à área, como o Fundo Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que são alimentados
por contribuições de empresas, mas que, na prática, destinam apenas uma
pequena fração de fato para pesquisas – a maior parte costuma ser
contingenciada e usada para ajudar a fechar as contas do governo.

A proposta é, de um lado, vetar o bloqueio desses recursos,
estimados em cerca de R$ 5 bilhões, e, de outro, colocar em marcha
medidas para estimular o investimento das empresas em pesquisa e
desenvolvimento, hoje em torno de 0,6% do PIB, abaixo do visto em países
desenvolvidos. 

Nesse sentido, uma das ações previstas é reduzir a ênfase dada
hoje à oferta de crédito, estimulando em seu lugar a concessão de
subvenção. Por esse mecanismo, previsto em lei desde 2004, o governo
pode aplicar recursos públicos “não reembolsáveis” diretamente em
empresas que desenvolvam projetos estratégicos e dividir, assim, os
riscos da empreitada com o setor privado.

“O governo tem de orientar para onde vai a pesquisa, chamar as
empresas, estimulá-las a atender a demanda indicada e dar subvenção em
vez de crédito. Com isso, vamos ampliar muito o interesse das empresas
privadas em entrarem no setor”, diz Cintra.

Haddad

O candidato Fernando Haddad (PT) propõe
recriar o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) –
desfazendo a fusão com a pasta de Comunicações – e aumentar os
investimentos no setor para 2% do PIB até 2030, com recuperação dos
orçamentos das agências de fomento federais e descontingenciamento do
Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

As propostas constam do plano de governo registrado pela campanha de Haddad na Justiça Eleitoral, em setembro.

“É um documento mais conciso e mais objetivo”, diz o físico Sergio
Rezende, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que foi ministro
de Ciência e Tecnologia durante cinco anos no governo Lula. 

Várias das propostas apresentadas no novo documento da equipe de
Jair Bolsonaro, segundo ele, também são boas, mas “não batem” com o
discurso neoliberal do candidato do PSL. “Tenho muita dificuldade em
acreditar que elas serão implementadas”, avalia Rezende.

Desafios

A elevação do nível de investimento em
ciência e tecnologia para 2% do PIB é uma das principais demandas
apresentadas pela comunidade científica aos candidatos. A taxa atual
gira em torno de 1%. 

Tanto Haddad quanto Bolsonaro adotaram a meta, com prazos e ambições diferentes. 

Em ambos os casos, o especialista Fernando Peregrino acha
improvável que a proposta seja cumprida, diante das limitações impostas
pela crise fiscal e pelo modelo econômico atual. “Os mecanismos
necessários para que isso aconteça não estão colocados”, diz Peregrino,
presidente do Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições
de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies). “É
um clichê que não me convence.”

Haddad promete revogar a Emenda Constitucional 95, que impõe um teto fixo para os gastos públicos por 20 anos. 

“Temos de construir um governo de unidade nacional, que crie condições
para que a economia volte a crescer, gerar empregos e formas de ampliar a
arrecadação do Estado. Com isso será possível retomar os investimentos
em ciência, tecnologia e inovação”, disse a assessoria de campanha do
candidato.