Um dos aríetes de bronze encontrados no local de batalha naval entre Roma e Cartago (Foto: William M. Murray, courtesy of RPM Nautical Foundation)

 

Arqueólogos que exploram o local de uma batalha naval travada há 2,2 mil anos entre Roma e Cartago descobriram pistas de como o confronto pode ter ocorrido. Itens encontrados sugerem que Cartago usou navios de guerra romanos capturados e que marinheiros cartagineses jogaram carga no mar em uma tentativa desesperada de escapar.

De acordo com registros históricos, a batalha naval ocorreu em 10 de março de 241 a.C., perto das Ilhas Aegates, no Mar Mediterrâneo. Na briga, uma frota cartaginesa que estava tentando levar suprimentos para um dos exércitos de Cartago na Sicília foi interceptada pela marinha romana, que destruiu grande parte das embarcações. A vitória foi tão retumbante que Cartago foi forçado a pedir a paz, concordando com termos que favoreciam Roma.

Durante a última década, arqueólogos têm inspecionado o local do confronto, encontrando restos de aríetes de bronze, capacetes de metal e recipientes de cerâmica. Segundo a descoberta, Cartago parece ter usado uma frota de navios romanos roubados. "Dos 19 aríetes da área, acredito que 11 estão identificados como romanos", disse William Murray, professor de história da Grécia na Universidade do Sul da Flórida, nos Estados Unidos. 

Outro aríete romano encontrado no local da Batalha (Foto: William M. Murray, courtesy of RPM Nautical Foundation)

 

"Você esperaria que os cartagineses, que perderam a batalha, tivessem sofrido a maior parte das baixas", comentou Murray. "Esperaria que a maioria dos navios pertencesse a navios de guerra tripulados por cartagineses." Para ele, Cartago provavelmente usou navios roubados dos romanos em uma batalha anterior. 

Além disso, o formato de muitos capacetes descobertos é conhecido como "Montefortino" – popular entre os romanos. Uma explicação possível é que os cartagineses contrataram mercenários da Gália e da Ibéria para tripular os navios – soldados nessas áreas às vezes usavam capacetes Montefortinos.

Leia também:
+ Espada medieval é encontrada por trabalhadores em esgoto da Dinamarca
+ Os celtas conservavam as cabeças de seus inimigos com um método macabro

Os estudiosos também encontraram várias ânforas – tipo de vaso usado para armazenar líquidos – espalhadas pelos navios romanos. Isso é estranho, visto que os potes que caíram deveriam estar agrupados juntos. "É como se eles tivessem sido jogados no mar, se separaram um do outro e depois afundaram", declarou Murray.

Uma possível explicação é que, em algum momento da batalha, os cartagineses perceberam que sua missão não teria sucesso e descartaram a carga (suprimentos destinados ao exército de Cartago na Sicília) na tentativa de tornar seus navios mais leves e mais rápidos. 

Modelo de capacete Montefortino feito por Murray (Foto: Courtesy of RPM Nautical Foundation)

 

Além de estar dispersa, "nenhuma das ânforas é revestida com uma substância semelhante a alcatrão", que evita que o líquido evapore enquanto está sendo armazenado. Isso significa que qualquer líquido dentro teria evaporado no momento em que os potes chegaram à Sicília. Consequentemente, mesmo que a frota cartaginesa tivesse chegado à terra, parte da carga teria sido desperdiçada. De acordo com Murray, embora as ânforas também possam ser usadas para armazenar grãos, representações antigas de cargas sendo retiradas de navios indicam que os grãos eram mais comumente transportados em sacos. 

Talvez os cartagineses estivessem tão desesperados para levar suprimentos ao seu exército que não tiveram tempo de enfileirar as ânforas. Outra possibilidade, para Murray, é que os cartagineses não tivessem nenhum saco disponível e decidiram usar ânforas para levar os produtos. Os cientistas estão no processo de realizar testes químicos para tentar determinar o que os recipientes continham. 

Murray e outros membros da equipe apresentaram as descobertas em um documento apresentado na reunião anual conjunta do Instituto Arqueológico da América e da Sociedade de Estudos Clássicos, realizada em San Diego, nos Estados Unidos, entre 3 e 6 de janeiro deste ano. O projeto para inspecionar e escavar a água o local da batalha está sendo conduzido em conjunto pela Fundação Náutica Soprintendenza del Mare e RPM da Sicília, na Itália, e envolve cientistas de várias instituições. 

Curte o conteúdo da GALILEU? Tem mais de onde ele veio: baixe o app Globo Mais para ler reportagens exclusivas e ficar por dentro de todas as publicações da Editora Globo. Você também pode assinar a revista, a partir de R$ 4,90, e ter acesso às nossas edições.