Não há espaço para utopia ou improviso. É este princípio que norteia Tite na Seleção. Nos seus primeiros treinos em Quito, o treinador coloca em prática anos de estudo e sonhos. Desde 2012, ele cultivou a obsessão por assumir o Brasil.

A decepção por ter sido preterido por Felipão em 2012 e, depois por Dunga, em 2014, o frustrou. Mas deixou marcas profundas. Ele se conscientizou. A ponto de não se deixar enganar como foram os ultrapassados Felipão e Parreira. E nem testar formações táticas a cada convocação, como Dunga.

Tite já deixou claro. Seu Brasil adotará o 4-1-4-1 não só contra o Equador, na quinta-feira, mas deverá chegar assim à Copa do Mundo da Rússia. Seu raciocínio é lógico. E foi o esqueleto tático que segurou o Corinthians depois dos desmanches da diretoria, desesperada por dinheiro para pagar a dívida com o Itaquerão.

O treinador na sua primeira convocação tem 23 jogadores que valem R$ 1,4 bilhão, de acordo com o site Transfermarkt. Tem nas mãos o futebol mais vitorioso do planeta, com cinco títulos mundiais. Só que desacreditado. Os fracassos nas Copas de 2006, 2010 e, principalmente, a de 2014, em casa o deixam à vontade.

Tite sabe que é o último treinador brasileiro a merecer confiança. Depois dele, só restaria ao xenofóbico Marco Polo Del Nero apostar em estrangeiros. Por isso, o ex-corintiano tem toda a autorização para fazer o que quiser.

E ele está montando o Brasil para tentar primeiro não perder do Equador. Os repórteres que estão em Quito repetem o esmero com que Tite está aproveitando esses três dias até o confronto. Já acertou marcando o encontro da Seleção no Equador. Ninguém teve de beijar a mão de Del Nero ou passar horas inúteis na Granja Comary, cada vez mais sem sentido, inútil milionária concentração na fria Teresópolis.

A aclimatação aos 2.800 metros. Local onde o ar rarefeito deixa a bola mais rápida, confunde os zagueiros, os goleiros. Talvez por isso o Brasil não vença em Quito desde 1983, há 33 anos. Tite está fazendo a defesa se acostumar com as cruzamentos, escanteios. E os goleiros com os chutes fora da área. Muito melhor do que buscar entender a altitude duas horas antes, como a Seleção costumava fazer.

Tite molda Seleção como o Corinthians campeão brasileiro. Equipe competitiva, moderna, vibrante. Com Neymar sendo peça importante. Não uma estrela deslumbrada, como era com Felipão e Dunga...

Tite deu o esboço de time que pretende colocar em campo. Allison, Daniel Alves, Miranda, Gil e Filipe Luís; Casemiro; Paulinho, Renato Augusto, Willian e Neymar; Gabriel. Marcelo e Philippe Coutinho também podem surgir na equipe. Taison e Giuliano são dois jogadores que o técnico acredita serem surpreendentes. Gabriel Jesus fica à espreita do desempenho de Gabriel, na frente.

Mas pontos fundamentais já vieram à tona. O treinador tentar fazer com que a Seleção atue exatamente como o Corinthians fez, com sucesso, no segundo semestre de 2015. Uma equipe com muita compactação, com as linhas juntas, marcação alta, sem dar espaço para o Equador tocar a bola nas intermediárias. Muita triangulação pelas laterais. Penetração constante dos volantes Paulinho e Renato Augusto na área adversária.

Neymar terá a esquerda e o meio para jogar, como faz e gosta no Barcelona. William ou Philippe Coutinho. Um dos dois precisará fazer o mesmo pela direita. Além disso, os titulares deverão compor, fechar os corredores laterais. Casemiro ficará fixo, à frente da área. Para atuar quase como um terceiro zagueiro. Assim dará mais confiança, principalmente para Daniel Alves apoiar. Os vídeos de partidas dos equatorianos convenceram Tite que o adversário tem preferência na hora de atacar. Pela direita. Daí Filipe Luís, melhor na marcação, ter vantagem diante de Marcelo, muito mais ofensivo.

O Equador de Gustavo Quinteros é atrevido. Principalmente atuando em casa. A altitude grande aliada, mas a geração atual é uma das melhores da história do país. Já venceu nesta Eliminatórias a Argentina em Buenos Aires, o Uruguai, em Quito, e empatou com o Paraguai de formar injusta. Massacrou o adversário. Liderou as Eliminatórias até que enfrentou os colombianos, em Barranquilla. Se dobraram por 3 a 1.

Esta última partida serve de espelho para Tite. Taticamente, os colombianos sobraram porque marcaram muito forte nas intermediárias. Não deixaram os rivais respirar. O argentino José Pekerman teve como grande trunfo o conjunto, a velocidade pelas laterais. E James Rodrigues conseguiu, com seu talento, ser o maestro do time. O 4-1-4-1, virou 4-2-3-1 e até 4-2-2-2, passando pelo 4-3-3. Com jogadores executando diversas funções durante a partida, como também sonha o treinador brasileiro. Era o que fazia no Parque São Jorge, depois de meses de treino, não três dias.

Por isso, Tite tem conversado com os atletas que é impossível exigir a vitória no Equador. Se tudo der certo, ótimo. Mas se não estiver dando, o empate será algo aceitável, pelas circunstâncias. A projeção do treinador e do coordenador Edu Gaspar é de,no mínimo, quatro pontos nos dois primeiros jogos. Em Quito e em Manaus, diante dos colombianos, na terça-feira, dia 6.

Tite molda Seleção como o Corinthians campeão brasileiro. Equipe competitiva, moderna, vibrante. Com Neymar sendo peça importante. Não uma estrela deslumbrada, como era com Felipão e Dunga...

A tendência é que Tite aceite o pedido de Neymar. E a capitania, por enquanto deve ficar com jogadores mais vividos, rodados, amadurecidos. Miranda, Daniel Alves, Renato Augusto. Estes serão seus líderes. Mas o treinador que, quando a situação estiver mais calma, o maior talento brasileiro volte a ser capitão.

O treinador espera que o grande talento do país perceba que o conjunto é sempre mais importante. E o grande cuidado será convencê-lo se as coisas, no começo, não derem certo, Neymar não tente resolver o jogo sozinho. Tente driblar toda defesa adversária. Como fazia com Felipão e cansou de fazer com Dunga.

O grande ganho nestes primeiros dias de Tite como treinador efetivo da Seleção é a noção da realidade. O Brasil não está em sexto nas Eliminatórias por acaso. Assim como também não conseguiu se classificar à Copa das Confederações à toa.

A Seleção esteve perdida, iludida.

Era necessário enfrentar a realidade.

Com um só talento é preciso investir na estratégia.

Chega de tentar fazer o time se encaixar em Neymar.

Neymar que se encaixe na Seleção.

Já é um progresso enorme em relação a Dunga e Felipão.

As conquistas do Corinthians, sem estrela, ensinaram a Tite.

O importante para vencer hoje em dia é ter um time.

E não só um grande craque deslumbrado...
Tite molda Seleção como o Corinthians campeão brasileiro. Equipe competitiva, moderna, vibrante. Com Neymar sendo peça importante. Não uma estrela deslumbrada, como era com Felipão e Dunga...