Criada em 2015 com o objetivo de melhorar o nível do futebol feminino para a disputa da Copa do Mundo no Canadá e das Olimpíadas Rio 2016, a seleção permanente de futebol feminino vê seu futuro ameaçado com o fim dos dois eventos. Para quem acompanhava o futebol feminino, o fim da seleção permanente já era esperado, porém não é uma unanimidade e divide a opinião de torcedores, jogadores e jornalistas esportivos.

Por um lado, há quem defenda que a seleção feminina permanente não atingiu o objetivo esperado. Esta é a opinião de William Douglas, repórter esportivo da EBC: "O problema é que este projeto não funcionou, apesar da concepção inicial parecer boa. Pedia-se entrosamento das jogadoras, mas na hora que se convoca são apenas quatro da seleção permanente, a gente não teve realmente uma seleção permanente", diz. Para Douglas, o futebol feminino precisa ter uma base mais complexa. "A solução passa muito mais por estruturar um campeonato, os clubes, ter calendário, (que as meninas) participem de competições fortes do que separar 15, 20 e tirá-las deste ritmo de competição", defende.

Willian Douglas acredita que o futebol feminino deveria seguir outro caminho. "Precisa de um projeto longo, sério, tocado por quem conhece o futebol feminino. Acho que é hora de pensar inclusive em comissão técnica e dirigentes mulheres. A gente já tem gerações de jogadoras desde a década de 1990, então estas meninas têm que ter voz também para poder tomar as decisões no futebol feminino", sustenta.

Creative Commons - CC BY 3.0 - Futebol Feminino estreia nos Jogos do Rio - Foto: Ricardo Stuckert/ CBF

O outro lado

A antropóloga Ana Paula Silva, da Universidade Federal Fluminense, por outro lado, defende a manutenção da seleção permanente feminina e reclama das comparações entre futebol feminino e masculino, uma vez que um dos argumentos de quem defende o fim dessa estratégia é que ela não existe para os homens. Para a especialista, é importante se analisar o futebol feminino como algo independente do masculino. "São modalidades específicas, e assim devem ser tratadas. Apenas no futebol existe essa comparação. No vôlei, por exemplo, ninguém fica comparando seleção feminina e masculina. É entendido que são formas diferenciadas de jogo, com características outras que as fazem não serem passíveis de comparação", avalia. 

Seguindo esse raciocínio, Ana Paula defende que o fim da seleção feminina permanente não seria uma solução. "O desenvolvimento e a trajetória do futebol feminino é muito diferente da do masculino. Existem ligas, torneios, e os meninos são treinados desde a sua primeira infância para o futebol, coisa que não acontecem com as mulheres. A seleção permanente é uma forma de manter um grupo de mulheres treinando e jogando. Os homens não precisam disso porque jogam praticamente o ano inteiro em seus respectivos times. Acabar com a seleção feminina é desprestigiar o futebol feminino que luta a duras penas, em um país que enxerga e prega a ideologia do futebol como 'coisa de homem'".

O apresentador do programa Stadium, veiculado nas rádios Mec e Nacional AMe integrante do Conselho Federal de Educação Física, Wagner Gomes, também é contra o fim da seleção permanente. "O Brasil não tem campeonatos regionais fortes de futebol feminino, e as jogadoras que querem se manter na ativa têm que ficar fora do país. Seria bom ter ao menos alguma coisa que as faça treinar juntas, em um nível mais elevado e com estrutura. Os clubes não querem assumir o futebol feminino e colocar as jogadoras dentro da sua estrutura. A tendência é ficar pior", alerta.

A CBF foi procurada pela reportagem, porém não retornou o contato até o fechamento desta matéria.