Brasília - O cineasta Rogério Sganzerla - expoente do movimento cinematográfico brasileiro conhecido como Cinema Marginal -  completaria 70 anos nesta quarta-feira (04). Ao longo da vida produziu 30 filmes, entre longas, vídeos e curtas-metragens. Faleceu em 2004 aos 57 anos após ficar internado por 26 dias no Hospital do Câncer de São Paulo, vítima de um tumor no cérebro.

Vida e cinema

Natural de Santa Catarina, Sganzerla iniciou sua carreira como crítico de cinema aos 17 anos e se tornou conhecido como diretor de cinema, aos 22, com seu primeiro longa-metragem "O Bandido da Luz Vermelha" (1968). Sucesso de bilheteria e crítica, a ficção inspirada em João Acácio Pereira - o bandido que utilizava uma lanterna vermelha em assaltos em São Paulo na década de 60 -  foi definida pelo diretor como um “faroeste do Terceiro Mundo”.

“O ponto de partida de nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema – como também da nossa sociedade, da nossa estética, dos nossos amores e do nosso sono. Por isso, a câmera é indecisa, o som fugidio, os personagens medrosos.  Nesse país tudo é possível e por isso o filme pode explodir a qualquer momento”, diz o manifesto divulgado pelo cineasta na ocasião de lançamento do filme.

Cinema Marginal

O primeiro longa de Sganzerla inaugurou, ao lado de A Margem (1966) de Ozualdo Candeias, o movimento conhecido como "Cinema Marginal", que surgiu na região da Boca do Lixo em São Paulo – onde se concentravam diversas produtoras de pequeno porte - e marcado por produções de baixo orçamento e grande experimentalismo estético.

O diretor, porém, discordava da expressão por não fazer "um cinema que queria ficar à margem dos circuitos exibidores (atitude bem diferente do Underground norte-americano), mas um cinema que, com raras exceções (O Bandido da Luz Vermelha), foi marginalizado pelos circuitos – e pela censura", observa o crítico Jean-Claude Bernardet em um texto sobre o tema.

Continuação

Sganzerla deixou um roteiro para a continuação de O Bandido da Luz Vermelha com o título Luz nas Trevas – A revolta de Luz Vermelha, que chegou às telas em 2012 dirigido por Helena Ignez e Ícaro Martins, tendo no elenco Ney Matogrosso no papel principal e a atuação de Djin Sganzerla, uma das filhas do cineasta. Casada com Sganzerla, a atriz Helena Ignez atuou em O Bandido da Luz Vermelha ao lado de Paulo Villaça, e protagonizou o segundo filme do diretor, Mulher de Todos (1970), também sucesso de bilheteria e crítica.

Experimentação e exílio

Os dois primeiros filmes de Sganzerla já apresentavam uma linguagem inovadora e dialogavam com expoentes do cinema moderno como Jean Luc Godard, Orson Welles, Samuel Fuller e Glauber Rocha, além de trazerem referências de quadrinhos, linguagem radiofônica e a chanchada brasileira dos anos 40.

Com o sucesso de bilheteria de suas primeiras produções, Sganzerla aprofundou o processo de experimentação cinematográfica e o diálogo com o movimento tropicalista com a fundação da produtora Belair em parceria com Helena Ignez e o cineasta Júlio Bressane . Inaugurada em 1970, em seis meses a produtora foi responsável por seis filmes de baixo orçamento, entre eles Copacabana Mon Amour, dirigido por Sganzerla com trilha sonora assinada por Gilberto Gil.

Também pela Belair Sganzerla dirigiu o longa-metragem Sem Essa Aranha, com atuação de Jorge Loredo (Zé Bonitinho), Luiz Gonzaga e Moreira da Silva. Os filmes feitos em plena ditadura militar não puderam ser finalizados nem distribuídos e o diretor resolve deixar o país para se exilar em Londres.

Orson Welles

Quatro dos 30 filmes de Sganzerla tratam da passagem do diretor Orson Welles pelo Brasil em 1942.Os três primeiros são documentários sobre o filme que Welles foi impedido de fazer no Brasil e que levaria o nome "It's All True: Nem Tudo é Verdade" (1986), "A Linguagem de Orson Welles" (1990)," Tudo é Brasil" (1997).  O filme que fecha a série dedicada a Welles, "O Signo do Caos" (2003) é uma ficção sobre o tema. Último filme de Sganzerla, lançado pouco antes de sua morte, o longa recebeu o prêmio de melhor direção no Festival Brasileiro de Cinema de Brasília.

Homenagem

Em 2012, um documentário em homenagem a Sganzerla recebeu o prêmio de melhor documentário no festival É Tudo Verdade. Dirigido por Joel Pizzini Mr. Sganzerla - Os Signos da Luz é definido como um "filme-ensaio que recria o ideário do cineasta Rogério Sganzerla por meio dos signos recorrentes em sua filmografia".