Rio de Janeiro...

A festa está programada. Churrascaria reservada. Camisetas especiais confeccionadas, escondidas no vestiária. Tudo normal como acontece nas grandes finais. Mas o que mudará no futebol deste país se a Seleção confirmar seu favoritismo, como a enfraquecida Alemanha, e ficar com a desejada medalha de ouro?

O discurso de renascimento do futebol brasileiro precisa ser muito bem analisado. Micale e Tite têm tentado de todas as formar convencer jornalistas e a opinião pública desse desencantar.

A emoção da vitória não pode ser pretexto para esconder o quanto falta planejamento, comprometimento real por parte da CBF. Foi-se o tempo que o talento dos jogadores compensavam o incompetente e improvisado trabalho coma estrutura do futebol brasileiro.

Se não houver gestão, firmeza, metas definidas, a medalha dourada no peito não terá significado algum. Por isso o Brasil tem a obrigação fazer algo que sempre evitou, por não dar holofotes. Fazer um trabalho de longo prazo.

O Brasil segue um caminho absolutamente improvisado na base. Com seleções montadas para ganhar campeonatos. Com clubes grandes usando sua força para impor atletas nas convocações. Querem a valorização em futura revenda.

São vários os casos de treinadores que acabam perdendo o emprego. Por não atender na convocação a expectativa de equipes poderosas. São absolutamente vulneráveis. A situação se repete por falta de divulgação.

O ouro ou a prata olímpica não terão significado algum. Não, se não for feita uma reformulação na improvisada e viciada categoria de base neste país. É obrigação da CBF acabar com o improviso e farra dos empresários...

Os treinadores escolhidos também são inexperientes e desconhecidos publicamente. Por isso suas vozes não têm alcance. Países poderosos como a Alemanha costumam colocar técnicos importantes, veteranos, mas com visão moderna do futebol, para trabalhar com os meninos.

Por exemplo, se Levir Culpi fosse o treinador de uma seleção permanente sub-17. Os clubes grandes e empresários poderosos pensariam mil vezes antes de pressionar, exigindo convocações. Levir teria força para agir. Muitos técnicos novos seguem expostos, desprotegidos.

Talvez por pura falta de interesse e desconhecimento, Marco Polo del Nero não percebe que a categoria de base não pode ser laboratório, escola para técnicos. É preciso ter pessoas comprometidas, mas vividas. Respeitadas nacionalmente.

Tite está indo na direção dos grandes clubes e seleções. Quer impor o que, por exemplo, a Espanha faz há décadas. Impor um padrão tático em todas as categorias. Elas precisam estar afinadas com a Seleção principal.

Se o Brasil quer resgatar de verdade, seu futebol ofensivo, com o uso de meias. Mas adaptado à realidade, com muita organização tática, marcação alta, recomposição, triangulações, intensidade, é algo que precisa ser treinado desde cedo.

O ouro ou a prata olímpica não terão significado algum. Não, se não for feita uma reformulação na improvisada e viciada categoria de base neste país. É obrigação da CBF acabar com o improviso e farra dos empresários...

O alegado DNA do futebol, que corre nas veias do brasileiro, é o talento nato com a bola nos pés. Mas está claro que só isso não basta para ganhar o título que realmente importa. As Copas do Mundo.

Não adianta fingir. O ouro olímpico nunca esteve tão desvalorizado. A Fifa não quer que a competição do COI tire o brilho da Copa do Mundo. Por isso, o futebol masculino tem a importante restrição, só três jogadores acima de 23 anos. Isso não acontece em nenhum outro esporte.

Além disso, a Fifa foi além. Atendeu aos clubes europeus e, desdes setembro de 2015, deu liberdade para negar seus atletas para a Olimpíada. Podem ser garotos ou com mais de 23 anos. A cruel decisão é para tirar as estrelas, cada vez mais jovens, da competição. Esvaziá-la. As equipes adoraram a decisão. E seguem aproveitando julho e agosto para a pré-temporada.

O ouro ou a prata olímpica não terão significado algum. Não, se não for feita uma reformulação na improvisada e viciada categoria de base neste país. É obrigação da CBF acabar com o improviso e farra dos empresários...

Basta analisar qual estrela a Alemanha disponibilizou para os Jogos do Rio? Nenhuma. E cinco atletas importantes do time sub-23 foram dispensados. Porque estavam no grupo da Eurocopa. Jaime Rodrigues não estava com a Colômbia. Nem pensar em Messi na Argentina.

Se enganar é o pior caminho, sempre.

Acreditar que, uma eventual vitória contra o time enfraquecido, sem estrelas, será o revide dos 7 a 1 e marca o renascimento do novo futebol brasileiro é algo mentiroso. E perigoso.

O Brasil ainda segue vítima de seu atraso.

O pensamento não pode ser tão raso. A equipe olímpica foi formada em 15 dias. Apelou para seu melhor jogador, o terceiro do mundo, Neymar. Outro renomado titular da Seleção, principal, Renato Augusto. Enfrentou adversários fraquíssimos e fracassou, como África do Sul e Iraque. Venceu Dinamarca, Colômbia e Honduras.

Rogério Micale foi a terceira opção de técnico. Alexandre Gallo ficou 27 meses arquitetando o planejamento para as Olimpíadas. Dois anos e três meses. Foi mandado embora por conflitos com equipes grandes nas suas convocações. O cargo passou para Dunga. Por um ano e um mês, ele acumulou funções. E usaria Micale apenas como consultor.

No dia 14 de junho, Micale ganhou o cargo. O Brasil estreou na Olimpíada, dia 4 de agosto. Del Nero nomeou e exigiu que Tite fosse o interventor. Acompanhando o trabalho do treinador de base, sem experiência para lidar com jogadores profissionais renomados, como Neymar e Renato Augusto. Ou estar no olho do furacão, em uma competição tão importante.

Isso não é planejamento.

É improviso.

O baixo nível técnico da Olimpíada não pode reforçar essa maneira com que a CBF segue gerindo o futebol deste país. Não tem o direito de pensar em uma seleção sub-23 permanente apenas para ganhar dinheiro em amistosos. Com o título olímpico, empresários garantem ser muito mais fácil e lucrativo arrumar jogos no Exterior.

A CBF precisa utilizar não só atletas sub-23, mas sub-21, como há vários neste time e espalhados pelo país, para formar um time permanente. Que possa servir como base para a Seleção principal de Tite.

Escolher pessoas competentes e vividas para comandar garotos desde a seleção sub-15. Quando o menino começa a entender de verdade a importância tática no futebol. Técnicos que saibam usar a estratégia para aprimorar o talento. Não aprisionem, não tolham a improvisação dos dribles. Mas saibam fazer dela uma grande aliada a um esquema estabelecido. O que não é nada simples.

O resumo da situação. Se vier o ouro ou a prata olímpica, o trabalho na base da Seleção Brasileira e nos clubes precisa mudar. A CBF tem obrigação de dar o exemplo na gestão.

Para a situação ficar perto da perfeição, a Lei Pelé teria de ser revista. Empresários sequestram, cada vez mais cedo, os meninos. Desestimulam o trabalho sério dos clubes na base. Quando os mais talentosos chegam aos 18, 19 anos, as equipes passam a ter parte mínima no direito de revenda.

Mas não há interesse real em mexer na Lei Pelé.

Ela é lucrativa para muita gente poderosa.

Pessoas associadas com os grandes empresários.

A bancada da bola em Brasília não age porque não quer.

Essa é estrutura básica do Brasil 'olímpico'...
O ouro ou a prata olímpica não terão significado algum. Não, se não for feita uma reformulação na improvisada e viciada categoria de base neste país. É obrigação da CBF acabar com o improviso e farra dos empresários...