Na abertura da Copa de 2014, o Projeto Andar de Novo, coordenado por Miguel Nicolelis, teve apenas alguns segundos para mostrar o funcionamento de um exoesqueleto controlado por um tetraplégico. Dois anos depois, o cientista brasileiro acaba de ser premiado internacionalmente por suas contribuições à tecnologias emergentes nos ultimos anos. 

No final da manhã desta sexta-feira (8), Nicolelis publicou uma mensagem em sua página pessoal no Facebook onde comemora o feito:

De acordo com a Universidade de Duke, nos Estados Unidos, instituição onde o brasileiro desenvolve suas pesquisas, o prêmio “2017 Institute of Eletrical and Eletronics Engineers (IEEE) Daniel E. Noble Award for Emerging Technologies” presta homenagem a profissionais cujas realizações e contribuições deixam marcas significativas na tecnologia, sociedade e na área da engenharia.

No caso de Nicolelis, o conselho de Administração do IEEE aprovou seu nome devido às suas invenções de interface entre cérebro-máquina.

Colaboração entre cérebro e máquina

A equipe de pesquisadores chefiada pelo neurocientista Miguel Nicolelis utiliza "tempestades cerebrais" para que seres humanos controlem objetos mecânicos em ambiente físico ou virtual.

Inicialmente, o grupo fez testes com macacos. Após resultados satisfatórios, deram início ao Projeto Andar de Novo (Walk Again), onde construíram um exoesqueleto (espécie de roupa robótica) capaz de ser controlado por sinais neurológicos de pacientes com paralisia motora. 

Em entrevista ao programa Espaço Público da TV Brasil, o cientista Miguel Nicolelis comemorou os avanços das pesquisas com a criação do exoesqueleto. Na ocasião, Nicolelis adiantou aos entrevistados que 80% dos seus pacientes começaram a recuperar algum tipo de função motora, sensorial ou visceral. “Eles começaram a mostrar contrações de músculos que estavam dormentes”, explicou.

Confira o programa completo na TV Brasil:

Sobre o prêmio E. Daniel IEEE

O nome que dá título ao prêmio é do vice-presidente executivo emerito da Motorola. Daniel E. Noble é conhecido nos Estados Unidos por conceber e instalar o primeiro sistema de comunicações de rádios de duas vias em todo o estado norteamericano. De acordo com o IEEE, esse foi o primeiro sistema no mundo a utilizar a tecnologia FM. 

Normalmente, premia-se de um a três individuos, que recebem uma medalha de bronze, certificado e honorários. Entre os critérios do julgamento, são consideradas as tecnologias recém-descobertas, sua importância, impacto, originalidade, alcance e qualidade.

O prêmio será dado em eventos do IEEE, provavelmente na metade do mês de janeiro de 2017. Mais informações estão disponíveis em inglês aqui

Exibição de exoesqueleto na Copa gerou polêmica

Na abertura da Copa, o Projeto Andar de Novo iria mostrar ao mundo um paciente tetraplégico se levantar de uma cadeira, dar alguns passos e chutar uma bola no meio do campo. Esse pontapé inicial aconteceria durante três minutos e daria início à Copa do Mundo no Brasil.

Nicolelis é premiado por contribuir com tecnologias emergentes dos últimos anosEntretanto, no dia 12 de junho de 2014, a TV Fifa, responsável pela transmissão da Copa, mostrou menos de 20 segundos de uma cena onde o voluntário tetraplégico Juliano Pinto aparecia já de pé, apoiado por dois assistentes e vestido com um exoesqueleto. Em um movimento com a perna direita, ele chuta uma bola que desce uma rampa.

 O fato gerou polêmica na imprensa brasileira que chegou a considerar a demonstração um fracasso e levantou questionamentos sobre o alcance do projeto. Contudo, Nicolelis responsabiliza a Fifa pela diminuição do tempo e destaca avanços em sua pesquisa como a capacidade de pacientes paralisados voltarem a contrair músculos. "A Fifa nos tratou muito mal e a imprensa brasileira também. No Brasil, a cultura cientifica é muito pouca, ninguém consegue fazer de fato um jornalismo científico como se faz fora”, desabafou.