Rio de Janeiro...

Qual a real participação de Tite na caminhada da Seleção Olímpica até a decisão do ouro? Esta é a grande pergunta entre os jornalistas que cobrem o Brasil. A resposta fica por conta do próprio Rogério Micale.

"A presença do professor Tite é sempre importante, principalmente no relacionamento que tenho com ele hoje, a experiência que ele tem de vida, de vivenciar o futebol, sempre conversamos, falamos de futebol, coisas que acontecem, momentos bons e ruins. A experiência dele sempre é bem-vinda."

E foi mesmo. O treinador da Seleção principal esteve várias vezes acompanhando o time, orientando e acalmando os jogadores. E trocando ideias táticas com Micale.

Houve uma assumida 'intervenção branca'.

Quando Dunga fracassou com a Seleção Brasileira na Copa América dos Estados Unidos, Marco Polo del Nero decidiu demitir o treinador. E também o coordenador Gilmar Rinaldi. Nada do que foi prometido pelos dois acabou sendo colocado em prática. Como uma reformulação de filosofia do time em relação ao que fracassou com Felipão e Parreira na Copa de 2014. Os dois treinadores campeões mundiais se mostraram ultrapassados.

Dunga se perdeu quando se viu comandando uma geração mediana com só um grande jogador. E virou como Mano e Felipão, um mero refém de Neymar. Sem percepção tática de como utilizar esses atleta, o técnico fracassou. Duas Copas América foram perdidas. Como a classificação para a Copa das Confederações na Rússia.

Como a discreta intervenção branca de Tite levou o Brasil à disputa do ouro olímpico. Jogada de mestre. Plenamente aceita pelo pupilo Rogério Micale...

Dunga havia combinado com Marco Polo que comandaria o Brasil na Olimpíada. Com a sua demissão, a herança ficou para Tite. Só que o ex-treinador corintiano não foi ganancioso. Pelo contrário. Deu uma lição de esperteza ao pedir para Del Nero manter Rogério Micale, vice campeão sub-20.

"Seria muito fácil para mim pegar uma gama de atletas com a qualidade que tem o Brasil, assumindo nesse curto espaço de tempo. Correr a grande possibilidade de vencer pela qualidade que tem e trazer os louros da vitória para mim também. Não é o meu trabalho que foi feito. Seria muito egoísta da minha parte e não seria o melhor para o Brasil", resumiu o treinador.

Foi um golpe de mestre. Tite não conhecia a fundo os garotos sub-23 que formariam o time, com exceção de Renato Augusto, Neymar e Weverton, substituto de Fernando Prass. Aliás, ele nunca gostou de apostar em jovens nos times que treinou. Optava sempre pela experiência.

Como a discreta intervenção branca de Tite levou o Brasil à disputa do ouro olímpico. Jogada de mestre. Plenamente aceita pelo pupilo Rogério Micale...

Com Micale ficou toda a responsabilidade de convocar a esmagadora maioria dos atletas. Renato Augusto, chamado para substituir o contundido Douglas Costa, e Fernando Prass são atletas convocados por responsabilidade direta de Tite. Confiava plenamente na dupla. Micale seque os conhecia pessoalmente.

Mas Marco Polo exigiu que Tite acompanhasse muito de perto o trabalho de Micale. Interferisse. Isso foi colocado de forma aberta entre os dois técnicos. Com a participação do coordenador Edu Gaspar.

O trato foi que Micale seguiria no dia-a-dia. O auxiliar do treinador principal, Cleber Xavier, acompanharia, discretamente, o técnico especialista em garotos. Tite sempre telefonaria, trocaria ideias, proporia soluções. Se houvesse a necessidade de sua presença física até para falar com os atletas, ele estaria presente.

E houve.

O momento mais significativo da 'intervenção branca' de Tite foi após os empates contra a África do Sul e Iraque. O Brasil poderia ser eliminado ainda na primeira fase se não vencesse a Dinamarca.

E Tite foi para Salvador. Se hospedou no Novotel. Conversou muito com os jogadores. E acabou importante na decisão da mudança do esquema tático. Na saída de Felipe Anderson da equipe e a entrada de Luan.

Micale havia treinado o Brasil com quatro atacantes no início da preparação. E até colocou Gabriel Jesus, Gabriel, Luan e Neymar, por nove minutos contra o Iraque. O resultado foi desastroso. O Brasil atuava no 4-2-4 e os fracos iraquianos aproveitavam o todo o espaço que ganharam nas intermediárias. Em seguida, desesperado, Micale tirou Gabriel Jesus e colocou Rafinha. Equilibrou o jogo, mas não evitou o vexame do 0 a 0. E nem da torcida revoltada de Brasília gritar por Marta.

Como a discreta intervenção branca de Tite levou o Brasil à disputa do ouro olímpico. Jogada de mestre. Plenamente aceita pelo pupilo Rogério Micale...

Tite foi ao estádio Pituaçu para mostrar a Micale que os jogadores estavam corretos. Mas a utilização errada. O ideal não seria atuar como nos anos 70, com quatro zagueiros, dois no meio de campo e quatro no ataque. Isso é impossível no futebol moderno.

Neymar passou da ponta esquerda para o meio, atuando até como falso centroavante, posição que Messi ocupa no Barcelona. Gabriel Jesus e Gabriel revezam pela direita e meio, para ter com quem Neymar tabelas. E Luan, entrou bem demais. Não só na esquerda, fixo. Mas trocando com Neymar. Onde um está, o outro se posiciona do outro lado.

Esta movimentação desorienta a marcação adversária. E ainda foi fundamental na recomposição. Fazendo com que o Brasil passasse a ser melhor protegido sem a bola.

Tite mostrou que a aposta correta seria o 4-2-3-1. Com variações para o 4-2-2-2 e 4-3-3. Nunca o meio de campo aberto, sem a possibilidade de quatro atletas preenchendo as intermediárias.

Como a discreta intervenção branca de Tite levou o Brasil à disputa do ouro olímpico. Jogada de mestre. Plenamente aceita pelo pupilo Rogério Micale...

A partir da visita de Tite à Bahia tudo se transformou.

O Brasil mudou sua maneira de atuar. Goleou a Dinamarca e Honduras e venceu bem a Colômbia. As vaias viraram aplausos. As críticas, elogios. Vieram as 13 vitórias. 12 gols marcados e nenhum tomado.

O lado favorável nesta transformação é que foi tudo às claras. Tite não colocou uma peruca loira no Novotel. Estava lá para quem quisesse ver. Micale não desmentiu o indesmentível. Agiu como um treinador auxiliar, cuja grande utilidade foi preservar a integridade da imagem do novo técnico da Seleção.

Se o Brasil for campeão olímpico, ganhar a medalha de ouro, Micale estará, com justiça nas fotos. Dará abraços nos seus '18 filhos' como batizou os convocados. Sua vida mudará. Como técnico permanente da Seleção Sub-23 que a CBF pretende criar. Ou então buscará ganhar muito mais do que seus R$ 25 mil. E partirá para clubes como técnico de profissionais e não mais de garotos.

Poucos lembrarão da intervenção de Tite.

Caso a Seleção seja derrotada, o prejuízo público será todo de Micale. A prata não vale nada para Marco Polo del Nero. Mano Menezes foi demitido pelo fracasso na decisão olímpica em Londres. A CBF e sua parceira Globo precisam do ouro.

Em caso de derrota não há certeza nem que Micale seguiria na CBF. E todos os erros na preparação viriam à toda. E prejudicariam a pretensão do treinador em trabalhar com profissionais em grandes clubes.

Tite ficaria ileso.

Ou seja, a intervenção branca aconteceu.

Foi com a permissão de Micale.

Um arranjo fundamental para o Brasil decidir o ouro.

Jogada de mestre de Adenor Leonardo Bacchi....
Como a discreta intervenção branca de Tite levou o Brasil à disputa do ouro olímpico. Jogada de mestre. Plenamente aceita pelo pupilo Rogério Micale...