Anunciar uma retomada, tornar a Copa do Brasil a meta, e no dia seguinte, perder para o Juventude, time da Terceira Divisão, em pleno Morumbi. Sua vigésima derrota no ano. Ninguém perdeu tanto entre os clubes da Série A em 2016. Com direito a protesto da torcida. Constrangimento de atletas, como Carlinhos. Divisão entre jogadores estrangeiros e brasileiros. Dirigentes revoltados, assustados.

Fazer Rodrigo Caio a viajar às pressas para a Itália, para tirar passaporte comunitário. O clube faz leilão entre Sevilla, Lazio e Milan. Desespero por ter cinco dias para vender seu principal jogador. E amenizar as dívidas de mais de R$ 200 milhões.

Maicon cobra publicamente a Comissão Técnica pelos fracassos.

Ricardo Gomes, depois de duas derrotas em três jogos, admite poder existir problemas fora do futebol que atrapalham o time.

O clube está a apenas quatro pontos da zona do rebaixamento no Brasileiro.

No centro de todo esse caos, Carlos Augusto Barros e Silva. Para o presidente do São Paulo, 2016 já havia terminado com a eliminação do clube na semifinal da Libertadores. O que restava era apenas terminar entre os quatro primeiros do Brasileiro e conseguir uma vaga para a Libertadores de 2017. Seria mais um ano sem título, a semifinal na competição mais importante da América do Sul, já teria valido.

A meta do São Paulo deixou de ser a Libertadores de 2017. O objetivo é escapar da Segunda Divisão. A crise é profunda.

Calleri e Ganso foram embora, como previsto. O atacante estava por empréstimo. E o meia rendeu R$ 16,3 milhões ao clube. Pouco mais da metade dos R$ 30 milhões que comprometeu com Maicon,zagueiro que completará em setembro, 28 anos. R$ 22 milhões mais 50% de Lucão e Inácio, porcentagem avaliada em R$ 8 milhões.

Leco cometeu um pecado mortal. Ele não tinha o direito, mas apostou na sorte. Que Edgardo Bauza seguiria normalmente no Morumbi. Os dois haviam feito um acordo. O de liberação imediata em caso de convite da Seleção Argentina. Sem pagamento de multa alguma. O presidente são paulino aceitou.

"Eu gostaria de ter até 2020 o Edgardo Bauza, ganhando Libertadores, Campeonato Brasileiro, no patamar do São Paulo", dizia, feliz, aos companheiros de diretoria.

O treinador pediu Buffarini e Andrés Chávez. Dois compatriotas. E ainda o peruano Cuevas. O dirigente os contratou. Sabia que Bauza já tinha planejado como melhor utilizar o trio. O restante do elenco. Para seguir com o planejamento. Uma vaga na Libertadores de 2017.

Só que sua euforia terminou no dia 1º de agosto. No caos que mergulhou o futebol da Argentina, Bauza acabou sendo o nome de consenso. E Leco não pôde fazer nada. A não ser dar um grande abraço e se despedir.

Ao perder o personagem principal do futebol do São Paulo, Leco recebeu várias indicações de substituto. A principal, o colombiano Reinaldo Rueda, campeão da Libertadores com o Atlético Nacional. O dirigente, traumatizado, não quis nem levar em consideração. A contração seria dificílima e cara. Além disso, os dois últimos treinadores estrangeiros haviam trocado o clube para assumir seleções. Osório foi para o México. E Bauza...

Foi quando Leco se lembrou de Ricardo Gomes. Treinador culto, que fala francês e inglês perfeitamente. De fácil trato. E que deveria ter feito carreira no São Paulo, se o falecido presidente Juvenal Juvêncio tivesse paciência. Os dois sempre mantiveram a amizade. Leco repetia o mantra que seu lugar era no Morumbi.

A meta do São Paulo deixou de ser a Libertadores de 2017. O objetivo é escapar da Segunda Divisão. A crise é profunda.

Ele já tivera um leve AVC no São Paulo. No Vasco teve um terrível. E que custou uma longa e exemplar recuperação. Exigiu muito sacrifício de Ricardo Gomes. Ficaram pequenas sequelas. Como a fala lenta e um leve mancar.

Com uma vontade incrível de trabalhar como técnico, não aceitou ser apenas dirigente do Vasco. Assumiu o Botafogo, o tirou da Segunda Divisão. O fez vice carioca. Teve proposta do Cruzeiro. Não aceitou, a diretoria carioca prometeu dar um aumento que nunca veio. Leco sabia disso e fez a proposta. Sabia que Gomes não recusaria. Foi o que aconteceu.

Só que Ricardo Gomes assumiu o clube em meio ao caos. Encontrou jogadores que esperavam seguir com Bauza. E, com três estrangeiros que só vieram para o Morumbi por causa do treinador argentino. Cuevas, Cháves e, principalmente, Buffarini, se sentem órfãos.

Os jogadores foram preparados e escolhidos pelo argentino. Sua filosofia de jogo é muito diferente da de Ricardo Gomes. O profundo choque foi inevitável. Desastroso.

O elenco do São Paulo custa R$ 6 milhões. É a quarta folha salarial do país. Mas se mostra desequilibrado, desorientado, sem confiança. Não tem merecido o apoio da torcida.

A derrota para o Juventude, time da Terceira Divisão, ontem em pleno Morumbi foi simbólica. Traumática. Mas resume a falta de rumo que a falta de visão de Leco jogou o São Paulo. Ricardo Gomes está tendo muito mais dificuldades do que imaginava para montar a equipe.

"A torcida fala por si. O que está acontecendo é uma vergonha, as coisas não estão correndo bem. Nossa equipe não está conseguindo trocar três passes e a defesa fica exposta. Toda hora a bola chega ao nosso gol e uma acaba entrando. O São Paulo é time grande e está jogando como time pequeno.

"A gente tem feito partidas de baixo nível. Às vezes o poder ofensivo não tem ajudado, tantas vezes que a bola vem no nosso gol, uma hora vamos tomar. Temos que ver onde estamos errando. A diretoria precisa intervir, descobrir onde está o erro, isso passa pelos jogadores e pela comissão técnica também."

Maicon resumiu sem medo. Cobrou publicamente a 'Comissão Técnica', leia Ricardo Gomes. O time perdeu todo o padrão desde que o técnico chegou. Os jogadores percebem a falta de objetividade, de distribuição tática. E comparam como a equipe era distribuída em campo, com Bauza.

"Você não monta uma equipe de um dia para o outro. Não quero dizer que estou chegando, ficar refém disso, a responsabilidade é minha dos resultados, desde o jogo contra o Inter. Mas como você monta uma equipe, precisa de tempo. Precisamos maturar essa equipe. Alguns jogadores importantes saíram. Tem que ter uma nova associação. Uma equipe com poder e ainda não é o caso de hoje. Essa equipe ainda não tem poder", admitiu ainda ontem, Ricardo Gomes.

Lugano e Buffarini tiveram uma longa conversa no banco, poupados que foram contra o Juventude. Não quiseram ir para os vestiários tão cedo. Os estrangeiros discutiam a grave crise que domina o time.

A torcida vaiou o time mas escolheu como alvos principais Leco e seu gerente Gustavo Vieira. Sabe que são os dois os responsável pelo vexame histórico ontem no Morumbi.

Leco, como de hábito nas derrotas, fugiu das entrevistas.

Mas conselheiros ligados ao presidente avisam que a meta mudou.

Diante do cenário constrangedor, o sonho não é mais a Libertadores.

Mas apenas manter o controle.

E seguir o mais longe possível da zona do rebaixamento.

A pressão seria insuportável caso o time caísse no Z4.

Apenas quatro pontos é a distância do inferno.

Os jogadores e Ricardo Gomes não se acertam.

Leco está tenso, nervoso, ainda mais inseguro.

Seu erro de avaliação em relação a Bauza foi o pivô da crise.

O momento do São Paulo é muito pior do que parece.

O sonho da Libertadores de 2017 ficou para trás.

O medo da Segunda Divisão é real...
A meta do São Paulo deixou de ser a Libertadores de 2017. O objetivo é escapar da Segunda Divisão. A crise é profunda.