Era dezembro de 2007. O Palmeiras vivia momentos de muita pressão. As organizadas, principalmente a Mancha Verde, tinham muita força no clube. Cobravam publicamente os jogadores. A cada fracasso do clube, mais medo impunham aos atletas.

Thiago Neves era uma das grandes revelações do futebol brasileiro. Por meses, os dirigentes palmeirenses articularam sua contratação. Sabiam que seu contrato estava para terminar no Fluminense. E o convenceram a atuar no Palestra Itália. Adiantaram, inclusive, R$ 400 mil. Dinheiro que ele usou para comprar um carro de luxou, uma BMW branca.

O Palmeiras contabilizou oito anos de jejum em 2007. E as organizadas atormentavam o elenco. Preocupado, Thiago Neves se arrependeu. Não quis cumprir o acordo. Por medo da torcida. A direção do clube paulista ameaçou ir à Fifa. Já que ele tinha assinado um pré-contrato. Mas depois desistiu. Recebeu o dinheiro de volta, do Fluminense, e a vida seguiu.

Thiago Neves foi só o exemplo público. Mas inúmeros jogadores não quiseram atuar no Palmeiras e no Corinthians por medo das organizadas. Isso acontece quando os dirigentes não se impõem. Principalmente depois de atos selvagens como a invasão de ontem no Centro de Treinamento do São Paulo.

Em meio à desculpa fácil de acusar a frágil oposição de manipular as organizadas, o inseguro Carlos Augusto Barros e Silva deixou escapar seu maior medo.

"Jogador nenhum deixará de vir jogar no São Paulo por medo."

Esse é o seu discurso em público. Mas a diretoria está muito preocupada com o que aconteceu ontem. O time de Ricardo Gomes não consegue render. Os dirigentes não conseguiram repor jogadores à altura de importantes saídas como as de Ganso e Calleri. O São Paulo empenhou R$ 30 milhões em Maicon. Não há dinheiro para grandes contratações. A janela para a vinda de atletas da Europa está fechada.

A saída está sendo buscar atletas na Segunda Divisão ou jogadores que não estão sendo utilizados por seus clubes, como Marquinhos do Internacional. O time o quer por empréstimo. O meia atacante não é um jogador marcado exatamente por bom relacionamento com torcedores. Pelo contrário. Costuma ser muito cobrado por não ter um comportamento aguerrido em campo.

Se for um jogador que seja exemplo de vibração, garra, gana, Marquinhos é o atleta errado. Seu rendimento costuma cair muito quando pressionado. Está marcado pela torcida colorada. Acusado de não se dedicar, não lutar. Por isso, mesmo com o clube gaúcho em crise, está na reserva dos reservas. Afastado.

Marquinhos no Internacional sofre com a mesma cobrança de Michel Bastos, Wesley e Carlinhos. Falta de empenho. Para o trio do São Paulo foi muito pior. Porque acabou agredidos pelas organizadas, principalmente a Independente, que invadiram ontem o CCT da Barra Funda.

A diretoria ordenou que o trio fosse relacionado para o jogo de logo mais contra o Coritiba. Não levou em consideração o lado psicológico. A determinação foi firme para que não ficasse a mensagem pública da vitória dos vândalos. Os atletas ficaram sem saída.

Gustavo Vieira de Oliveira está desesperado. Buscando atletas para reforçar o São Paulo. Leco o autorizou a contratar dois ou três atletas para a sequência do Brasileiro. Até para desviar o foco do péssimo futebol do time, capaz de perder para uma equipe da Terceira Divisão, em pleno Morumbi, como aconteceu com o Juventude, na quarta-feira. E que desencadeou a revolta dos torcedores.

Vários agentes e empresários repetem que o momento é péssimo. O São Paulo é dos clubes mais pressionados do país para qualquer jogador atuar. Os dirigentes demonstraram publicamente que não conseguem controlar suas organizadas. Nem proteger seus atletas. A falta de planejamento ficou evidenciado ao não levar o treino de ontem para o Morumbi. O momento não recomendava o treino no CCT da Barra Funda.

A maior preocupação do presidente do São Paulo. Jogadores passem, por medo, a recusar atuar no Morumbi. Por isso minimiza agressões a Michel Bastos, Wesley e Carlinhos.

Leco disfarça. Mas sabe que atletas podem recusar o São Paulo por medo de suas organizadas. E seu discurso, ontem após a agressão, foi absurdo.

"Foi um tapinha, um chutinho", disse, tentando minimizar as agressões a Michel Bastos, Carlinhos e Wesley. Inacreditável.

No ano passado, em agosto, torcedores ameaçaram agredir atletas e chutaram os carros de Michel Bastos e Ganso, após uma derrota por 3 a 0 para o Goiás, no Morumbi.

O Sindicato de Atletas Profissionais de São Paulo notificou o clube. E exigiu mais segurança aos jogadores. A diretoria prometeu protegeria melhor seus atletas.

Mas depois de um ano está claro.

A situação só piorou.

Drasticamente.

Como criticar qualquer atleta que se negue a se expor?

E não queira atuar no clube?

Onde 'um tapinha, um chutinho' são ridicularizados.

E a invasão de 500 vândalos é minimizada.

O auxiliar Pintado disse que viu torcedores armados ontem.

Ou seja, poderia ter acontecido uma tragédia.

E Leco finge não haver nada de errado.

Para que não se concretize seu maior temor.

Jogadores passem a não querer atuar no São Paulo.

Por medo das organizadas, que tudo podem.

Se isso acontecer, eles estarão errados?
A maior preocupação do presidente do São Paulo. Jogadores passem, por medo, a recusar atuar no Morumbi. Por isso minimiza agressões a Michel Bastos, Wesley e Carlinhos.